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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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A Importância do Adeus e do Luto 1
Esta ausência de rituais de morte é preocupante.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Hoje vamos falar de rituais. Mais precisamente de rituais de morte. Mas, cada palavra a seu tempo. 

Porque a palavra rituais pode ter diversos significados. Olhem, na minha especialidade, em psiquiatria, com muita frequência estamos a falar de rituais no chamado distúrbio obsessivo-compulsivo. Como sabem, alguns de nós têm problemas psicológicos que, olhem, obrigam-nos a, numa determinada ordem, fazer um número às vezes grande de coisas antes de algo tão simples como se poderem ir deitar. E se se enganarem nessa ordem têm de voltar ao início. Não é desse tipo de rituais que estamos a falar. 

Estamos a falar de rituais no sentido antropológico. Ou seja, de comportamentos culturalmente aceites e até promovidos por determinadas sociedades em determinadas situações de vida e que propiciam aos membros de determinado grupo uma sensação de normalidade, de apoio dos outros, uma sensação de maior bem-estar e de capacidade de se defrontarem com o mal ou festejarem o bem. Sei lá… Um batizado é um ritual. Um casamento é um ritual. 

Neste momento estamos a falar de rituais de morte. E estamos a falar de rituais de morte numa altura muito complicada, precisamente, para haver rituais de morte. Os noticiários, a internet, estão cheios de testemunhos de colegas meus, profissionais de saúde. Ainda há poucos dias eu ouvia uma enfermeira nossa, no Reino Unido, dizer “Nós fazemos o que podemos mas não é a mesma coisa. Parte-me o coração ver pessoas morrerem sem se poderem despedir dos seus familiares.”. Ora bem, desde logo isto é trágico para quem morre, literalmente sozinho, mas para quem fica… Recordar-lhes-ia algo. Lembram-se quando foi o acidente da ponte de Entre os Rios? De como os meus colegas salientavam a importância de se encontrarem os corpos para que eles pudessem ser honrados, homenageados, com os rituais de morte devidos? Ou seja, com os enterros, com o cuidar dos corpos, com as despedidas, com a reunião com os amigos e os familiares. Tudo isto propiciando uma coesão, digamos assim, social, que é importante. No registo da homenagem? Sim. No registo de organizar psicologicamente aqueles que ficam? Eu arrisco-me a dizer ainda mais. São estes rituais semelhantes em todos os lugares? De maneira nenhuma. Já viram - já viram seguramente - na televisão um enterro em Nova Orleães? Tentem transpor aquilo para a realidade portuguesa. Acham muito provável que no meio de Santo Ildefonso, aqui no Porto, houvesse um enterro ao som de jazz, com toda a gente a dançar? Não é provável. 

Em contrapartida, não vai assim há tantos anos - e até posso estar enganado - que ainda havia carpideiras em Portugal. E o que eram carpideiras? Eram mulheres, o mais das vezes pagas, que iam chorar para os rituais fúnebres transmitindo duas coisas: primeiro o estatuto social de quem morria - e isto vem de há milhares de anos atrás - e por outro lado exprimindo, digamos assim, aquilo que era a pena social, a pena de quem tinha convivido com aquela pessoa, perante o seu desaparecimento. 

Ou seja, cada sociedade organiza-se da sua maneira. Sei lá. Há sociedades em que depois do enterro seria impensável não haver, na casa de familiares, uma refeição farta para todos os amigos e onde se pode ouvir risos sem que isso seja uma falta de respeito. Aqui, para lhes falar com toda a franqueza, não resisto a deixar-vos uma nota de rodapé, que é, em contrapartida de vez em quando há rituais que ficam, eu diria, quase conspurcados. Se calhar muitos de vocês, como eu, já estiveram em velórios em que há pessoas que, desde discutirem os resultados de futebol do fim de semana anterior a contarem anedotas, fazem de tudo. O que significa que às vezes isto de, das fórmulas de apresentarmos os pêsames, de pormos uma cara contristada, de afirmarmos a nossa disponibilidade para tudo e mais alguma coisa, obedece não àquilo que sentimos, mas àquilo que achamos que é socialmente adequado. E isso vive perigosamente paredes meias com a hipocrisia. Fechemos parêntesis, porque é um parêntesis desagradável. 

Precisamos de salientar que esta ausência de rituais é, portanto, preocupante em termos de organização. E na minha profissão, na medicina - diria mais, para os profissionais de saúde em geral - é algo que vem na continuação de uma preocupação pré-existente. Com o abençoado avanço tecnológico, durante o século XX nós fomos tendo cada vez mais situações de morte em instituição de saúde. De uma forma muito mais anónima, fria, digamos assim. E não é por isso de espantar que a instituição médica, e dos profissionais de saúde em geral, e em particular os meus colegas dos cuidados paliativos, tenham vindo a tentar, o mais possível, de certa forma reumanizar a morte. E não é nada raro que nós encontremos situações em que as pessoas têm, entre aspas, a autorização para ir morrer no carinho dos seus. E por isso eu trouxe-vos uma coisa, um poema de Vasco Graça Moura que se chama “O Soneto do Amor e da Morte”.

Quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Idealmente, penso, todos nós gostaríamos de morrer assim. Neste momento estamos longe, muito longe, disso. E é pena. Por quem parte e por quem fica.
E vocês, já sabem, cuidem-se.

 

 

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