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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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A Importância do Adeus e do Luto 2
As recordações fazem com que as pessoas sobrevivam a si mesmas.
TRANSCRIÇÃO

Olá, hoje é uma continuação lógica do que falamos da última vez. Teria sido um verdadeiro sonho megalómano falar das duas coisas num único programa, porque vamos falar de luto, de lutos, em geral.

Estão a ver este calhamaço? Isto é a biografia de Charles Bukowski e que, se calhar não por acaso, chama-se: Uma vida de louco. Porque Bukowski teve uma vida, digamos assim, agitada... mas adiante. Vou-vos ler um poema que acho que é uma perfeita, magnífica porta de entrada para o tema que nos vai ocupar hoje. Chama-se: Confissão.


“À espera da morte

como um gato

que saltará sobre a

cama.


Sinto terrivelmente por

minha esposa


Ela verá este

corpo

duro e

branco.


Vai sacudi-lo uma vez, depois

quem sabe

outra:


Hank!


Hank não

responderá.


Não é minha morte o que

me preocupa, é minha mulher

abandonada com este

monte de

nada.


Quero,

no entanto,

que ela saiba

que todas as noites

dormindo

ao seu lado.


Que mesmo as discussões

Inúteis,

sempre foram

esplêndidas.


E que as palavras

difíceis

que sempre temi

dizer,

podem agora ser

ditas:


Eu amo-te.”


Bom, alguns e, sobretudo, algumas de vocês - não direi que já estejam a resmungar, mas estão a pensar assim: - Claro, os homens e a sua dificuldade de falar dos afetos. Este, precisa de morrer primeiro para lhe poder dizer aquilo que, tantas vezes, se calhar, ela ansiou ouvir enquanto ele estava vivo: que a amava. Vamos esquecer este Hank. Ele morreu. Esta mulher ficou. Esta mulher como todas as outras mulheres, como todos os outros homens, seja pelos maridos, seja pelas mulheres, seja por amigos, seja por pessoas que admiramos, elas desaparecem e nós temos de fazer lutos. Hoje não falaremos - nem sei se alguma vez o chegaremos a fazer - hoje não falaremos de outra coisa - que também não é simples, que é quando temos de fazer lutos por pessoas que não morreram, que saíram da nossa vida, mas que podemos encontrar em qualquer esquina aí pelo Porto. São lutos complicados, não é? Quando podemos tropeçar nas pessoas, semana a semana ou mês após mês, não é fácil às vezes seguir em frente. Não é isso que nos ocupa hoje. 

Na Medicina e na Psiquiatria, em particular, o tema do luto foi sempre muito importante. E há um nome que, de uma forma consensual, foi, eu diria um degrau - digamos assim - no estudo do luto. Não quer dizer que todos estejam de acordo com as suas teorias, não quer dizer que não tenha havido acrescentos às suas teorias, mas Kubler Ross - uma mulher que nasceu em Zurique e que, depois, acabou nos Estados Unidos e que era Psiquiatra e que se dedicou, sobretudo, ao acompanhamento do fim da vida das pessoas. Kubler Ross foi de certa forma a primeira a esquematizar - eu tenho um medo, pânico de utilizar este verbo, porque uma das coisas mais perigosas quando falamos das fases do luto é que as pessoas - na nossa nostalgia de termos certezas na vida e de a ver a preto e branco, de a cortar às fatias facilmente digeríveis - um dos grandes riscos é que as pessoas pensem assim: - Ah! Então as fases do luto são essas. Se nas alturas em que eu tive de fazer luto, não passei por elas, qualquer coisa está de errado comigo. Nada de mais falso. Alguns de nós não passam por algumas destas fases. Outros confundem-nas nos seus dias, todas. Mas continua a ser consensual que este é - entre aspas - um teórico trajeto que faz sentido.

E Kubler Ross dizia o quê? É preciso salientar que isto foi transposto para o luto, daquilo que foi o trabalho inicial desta mulher que era acompanhar as pessoas à medida que elas se aproximavam da morte. E o que é que ela nos disse? Ela disse que, o mais das vezes, a primeira fase é uma fase de negação. Nós dizemos: - Não é verdade, vou ouvir uma segunda opinião - no caso de nos aproximarmos da morte ou de termos perdido alguém, é qualquer coisa de visceral - Isto não pode ter acontecido, a pessoa não desapareceu, o mundo sem ela não faz sentido, etc, etc, etc. Acho que todos nós já tivemos situações assim. E depois, com muita frequência, há uma fase de raiva, de revolta até. Devo-lhes dizer que esta revolta, não é nada raro que seja dirigida contra alguém com A grande - Deus. Há pessoas que perdem a fé, pela revolta. Em 40 anos de consultório, se calhar a razão mais frequente para isso acontecer foi ouvir pessoas a falar da morte de crianças. Porque é qualquer coisa de tão obsceno, tão anti-natural que a própria fé dessas pessoas não resistia: Como é que Deus podia ter permitido uma coisa dessas? E depois, quando vamos a caminho da morte há uma fase de negociação em que nós fazemos promessas a Deus - ou acaso, etc. - que é: Se as coisas correrem bem, então eu... Quando estamos ainda a chorar alguém, portanto, do outro lado, esta negociação é mais flow, que é assim: Se eu tivesse feito isto, se eu tivesse feito aquilo, talvez as coisas tivessem corrido melhor entre nós... Há uma frase muito habitual que é: Se tivéssemos dito isto um ao outro... E todos nós sabemos que, com frequência, ficam muitas coisas por dizer.  

E a seguir vem a tristeza. Rigorosamente falando, eu devia ter dito a depressão, mas eu tenho sempre muito medo porque a tristeza, aqui, é perfeitamente natural - nós perdemos alguém que amávamos. E depressão, quer queiramos quer não, tem uma conotação demasiado médica, psiquiátrica e que, normalmente, traz como damas de honor as pastilhas e tudo isso. Não, aqui é tristeza. As coisas não fazem sentido, nós sentimo-nos sós - nem é sozinhos, é mesmo sós. Se as coisas correm naturalmente, depois vem a fase da pacificação. Agora, cuidado, porque podem pensar assim: - Ah, está a dizer-me que ficamos pacificados e fica tudo como dantes - Quartel General em Abrantes, não é? Fica tudo como dantes, é como se a pessoa não tivesse desaparecido e nós vivemos numa alegria constante. Longe disso. Eu também já fiz lutos - aos 70 anos, seria difícil não os ter feito. Não. Pacificação, neste sentido: nós conseguimos continuar a viver, seguimos em frente e a pessoa continua viva dentro de nós e acompanha-nos. E isto é duplamente importante. Para nós, porque estando pacificados, conseguimos prosseguir o nosso trajeto de vida, umas vezes alegres, outras vezes tristes. Mas não só. Para as pessoas que perdemos, esta pacificação, esta nossa capacidade de os ter dentro de nós e de os contar, é uma espécie de seguro de vida. Porque ao sermos capazes de ir buscar as recordações, e de as transmitir, nós fazemos com que essas pessoas, sobrevivam a si mesmas. Os Machado Vaz, infelizmente, os meus netos já não conheceram nenhum dos meus pais. E no entanto, de vez em quando, em almoços e jantares de família, um dos meus netos é capaz de dizer: - A avó Clara ou o avô Júlio, sobre isso dizia assim e assado, não era? E era. Porquê? Porque os meus filhos lhes contaram essas histórias - até bem mais do que eu - e é assim que se pode atingir uma forma de imortalidade laica. É assim, no âmbito da família, que se tece a chamada lenda familiar.

Quando olhamos para um retrato, aquela pessoa verdadeiramente não está morta, porque a sua imagem é muito mais do que a que foi captada na fotografia. A sua imagem está na nossa cabeça, acompanha-nos para todo o lado - viva da maneira possível. 

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