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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #parentalidade
  • #crianças
A leitura como elo de ligação entre pais e filhos
Um livro é um objeto para unir.
TRANSCRIÇÃO

Olá vamos continuar a usufruir da presença do Valter Hugo Mãe e eu pelo menos o mote, vou-lhe dar, ele depois vai-se espraiar para onde quiser.

Vou-lhe pedir que nos fale da literatura como elo de ligação entre pais e filhos.

Valter, mais uma vez benvindo, que me dizes?

Obrigado.

Ou não me dizes, tu falas do que quiseres.

Obrigado, direi. Sabes que isso em mim propõe-me começar imediatamente com a minha  própria história.

Sabes que eu nasci em Angola e não tenho disso memória, não tenho memória de Angola na minha infância.

Vim com dois anos e meio e por isso o espaço onde eu cresci foi uma construção literária, eu digo assim porquê?

Porque ele me chegava do discurso dos meus pais que era muito fantasioso, inclusive quando regressei a Angola e especificamente a Saurimo onde nasci, pude comprovar que a maior parte das lembranças que a minha mãe ou julgava ter de Saurimo eram talvez de outras cidades de Angola porque eles correram muito Angola e os meus irmãos nasceram também, em cidades distintas da minha e eu desde muito pequeno que tive assim a sensação de Angola ser para mim uma espécie de terra maravilha que eu não podia frequentar assim como a Alice, talvez não tenha descoberto a poção mágica para caber na porta, mas era uma terra de maravilha que era imediatamente literária.

O que representava, quando nós voltamos ou fomos apanhados de surpresa pela revolução, o que acontece é que em minha casa não há, não havia evidências do tempo de Angola, por isso não se trouxe nada, a casa ficou ao abandono, na altura já em Luanda e por isso eu precisei de imaginar aquele espaço.

O que fazia com que eu imaginasse a partir do que os meus pais diziam mas não a partir nem de muitas fotografias, eram pouquissimas as fotografias que havia em casa dos meus avós, nem imediatamente de literatura, não havia livros na minha casa, porque os livros do meu pai, os livros da minha mãe teriam ficado lá.

Paulatinamente eu fui-me apercebendo que os livros eram essa literatura, não é? E sobretudo com a permissividade de dizer respeito à imaginação, aquilo que se inventa e não só aquilo que deitamos de mão, do real que a literatura me podia dizer respeito, porque a literatura podia não só informar-me mas colocar-me dentro do ambiente, não é? Porque é isso que no fundo o romance, digamos assim a ficção pretende fazer.

É convocar, envolver de tal maneira o leitor que o leitor não só possa saber de um assunto, mas experiênciar o assunto como se estivesse no papel da personagem.

É por isso, desculpa, dirás se isto é uma heresia, é por isso que cada um de nós que lê um romance está a modificar o romance.

Estamos a injectar o nosso próprio imaginário.

Exactamente, se apropria dele.

E isso foi alguma coisa que eu aprendi, a dada altura, com uma certa direcção do meu pai e inclusivé da minha mãe que me começou a explicar que as conversas que nós tinhamos talvez estivessem detalhadas como se potenciadas a uma grandeza maior em livros que outras pessoas tinham escrito.

Eu lembro-me dessa impressão que me causava o meu pai dizer-me que livros que o Dostoievski ou que o Kafka ou que o Proust escreveu, ou escreveram, eram ainda conversas entre a minha pessoa e a pessoa do meu pai ou a pessoa da minha mãe ou até dos meus irmãos, como se eu pudesse chegar às pessoas da minha familia através de livros que nos precediam em muito, de pessoas que não nos tinham conhecido, que talvez não soubessem de nós.

E a verdade é que eu estou convencido disso, que entre nós existem livros que nos precedem e que de algum modo sabem de nós porque estudam a dimensão humana como nós necessitamos de aprende-la.

Isso é muito bonito, sabes?

Porque é assim, uma das coisas que na minha profissão é perfeitamente concensual é que nós nos construimos em relação, mas aqui há muita noção em relação com os outros de carne e osso.

O que tu estás a dizer é, mas não é só nessa relação.

Há gente que é feita de outras matérias, não é? e até profundamente imaterial.

Eu tenho sempre a sensação, às vezes eu até na brincadeira digo: "fiquei encalhado", isto diz muito respeito ao teu trabalho, fiquei encalhado por isso, sou solteiro, não tenho filhos e vivo um pouco ao abandono, mas a minha casa contêm uma multidão exactamente pela biblioteca, eu tenho uma multidão de gente dentro de casa por isso não é exactamente perante a solidão ou com a solidão que eu me relaciono, porque está sempre gente em minha casa.

Ou seja, estás sozinho, mas não estás só.

Exactamente, não é a mesma coisa.

E acredito nos livros e julgo até pretensiosamente que escrevo livros exactamente pela impressão da companhia e sempre pela autoridade, sempre pela relação com o outro, nunca seria um embate que eu acharia talvez até fútil com a minha solidão, porque também estou convencido que a solidão não é da natureza humana, não é um objectivo humano.

Não nos humaniza, pode ser um instrumento para uma certa deploração, meditação mas ela só faz sentido se for um instrumento para o regresso ao outro, para regressarmos ao encontro se não for assim, não serve para nada.

Por isso eu vejo a literatura como iminentemente fazedora do encontro e até fazedora da familia e herança, iminentemente herança, devemos todos herdá-la.

Ou seja faz parte daquilo que nós chamamos a herança familiar, não é?

Sem dúvida.

E como é a sensação, tu chegaste aqui, isto não é segredo, e a primeira coisa que fizeste foi oferecer-me um livro, e eu imediatamente e simbólicamente meti-o ao bolso para não me esquecer de o levar para casa.

Qual é a sensação que deve ser magnifica, porque eu não sou um escritor fui um escrevinhador a vida toda, que é diferente, Também és, também és...

Qual é a sensação, pegando no que dizias há bocado de teres a certeza que há muita gente por ai, não só em Portugal, que está sozinha, mas não só, porque tem os teus livros na estante?

Estão na multidão que guardo eu em casa também. 

É incrivel e por vezes cura-me.

Quando me dúvido, quando dúvido demasiado ou quando por algum motivo me perco também nas minhas angústias mais do que devia, uma simples lembrança de alguma coisa que me disseram, de alguma mensagem que acaba por chegar por email ou qualquer rede de alguém que acabou de ler ou que lembrou ler, pode ser muito redentora até, mais do que simplesmente terapêutica, é muito redentora, justifica muito a minha vida, no sentido em que quase que me explica porque sofri tanto, porque me custou tanto aprender alguma coisa ou ponderar sobre alguma coisa para poder escrever, há esse retorno que é de uma preciosidade incrivel.

Porque efectivamente consuma o encontro, não é? consuma isso de que eu que venho falando do livro, que o livro de facto é um objecto para unir, para traçar uma ponte entre quem somos e quem são os outros.

Sabes, eu acho que posso compreender pelo menos uma pequena parte disso, porque há muitos, muitos anos o meu pai chegou ao Porto, vindo de Lisboa porque ia lá à Gulbenkian com frequência, chegou e disse: Olha no comboio vinha uma senhora que me ouviu conversar, ouviu o meu nome e dirigiu-se-me e perguntou: É Júlio Machado Vaz? - Eu disse que sim e ela perguntou-me se havia alguma relação entre nós e eu disse que era seu pai, e ela disse-me: Ah, eu falei algumas vezes com o seu filho, agradeça-lhe por mim." Eu disse-lhe: " E como é que ela se chamava" e o meu pai: "Ela não disse". 

E eu fiquei a pensar, nem precisava.

Os tais momentos redentores em que uma pessoa diz que valeu a pena.

É, que nos sustentam, não é? o livro, eu tenho muito a sensação de que nós existimos, numa certa, um pouco à deriva sempre, mas numa certa instabilidade, e vamos por vezes só mais tarde, ao contrário das casas, estabelecendo as nossas fundações, porque por vezes só mais tarde conseguimos solidificar as sapatas do edificio, digamos assim, que eventualmente quando se constrói uma casa ou um prédio tem de ser a primeira coisa que se faz, mas com as pessoas não acontece assim, por vezes só numa certa idade descobrimos uma expressão que parece compor aquilo que nos vai suportar e que nós sempre precisamos de descobrir para nos suportar, sabes? eu vejo muito isso, uso muito a literatura para isso.

Eu vejo a literatura como esta coisa permissiva , mas sem dúvida uma ciência, uma sapiência

Uma sageza.

Exactamente, é uma coisa que acontece pela inteligência e porque nos fornece uma tremenda arma que é o conhecimento.

Está bem, vamos ter de ficar por aqui e eu desta vez vou mesmo ser megalómano e vou decretar que o porfalarnisso.pt já adquiriu a sageza suficiente para ter cá o Valter Hugo Mãe.

Até à próxima.

 

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