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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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  • #alimentação
Alimentação
A obesidade, por si mesma, é fator de risco de variadas doenças.
TRANSCRIÇÃO

Sejam bem aparecidos. Hoje, vamos falar de uma vertente de qualidade de envelhecimento em termos daquilo que é o nosso quotidiano e, porque não dizê-lo, a satisfação que podemos retirar da vida, mas também da outra face da moeda. Os riscos que, às vezes, os nossos pequenos ou grandes prazeres podem acarretar. Vamos ver se adivinham, eu trouxe-vos um poema delicioso de Vinicius de Moraes, vamos ver quantos versos são necessários, para perceberem do que estamos a falar.

“Não comerei da alface a verde pétala 
Nem da cenoura as hóstias desbotadas 
Deixarei as pastagens às manadas 
E a quem mais aprouver fazer dieta. 

Cajus hei de chupar, mangas-espadas 
Talvez pouco elegantes para um poeta 
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas. 

Não nasci ruminante como os bois 
Nem como os coelhos, roedor; nasci 
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz 

E um bife, e um queijo forte, e para ti 
[abre parênteses que é cachaça]
E eu morrerei, feliz, do coração 
De ter vivido sem comer em vão.

Ora, quantos versos é que já adivinharam? Estamos a falar da alimentação. Quase dá vontade de acrescentar a este delicioso poema de Vinícius, que tem outro muito mais longo, espantoso, em que ele ensina a fazer feijoada, mas quase apetece juntar a isto a velha frase que o meu pai sempre dizia, e não só ele: o que sabe bem, meu filho, não pode fazer mal. Infelizmente, a frase soa muito bem, mas não é verdadeira. Dois números – sempre os números para estragar o nosso ambiente de boa disposição. Em Portugal, nós temos 250 mil casos de obesidade mórbida e 1.400 milhão de portugueses com excesso de peso. Na realidade, 1.399.999 milhão portugueses e eu com excesso de peso. Porque é que isto não é, para muitas pessoas já seria suficiente para discutirmos a questão, não é meramente um problema estético porque a obesidade por si mesma é um fator de risco para doenças tão variadas como o cancro, as doenças cardiovasculares, e - se calhar até devia ter dito antes de todas as outras – a diabetes. E, por isso, nós temos até planos nacionais sobre como devem ser os nossos objetivos e como atingi-los em termos de alimentação. Estamos a falar basicamente de quê? Do sal, e todos vocês já leram notícias, e eventualmente já experimentaram no paladar a questão do sal no nosso amado pão. A questão dos açúcares, também já viram notícias sobre as bebidas açucaradas, sobretudo quando falamos da nossa ganapada e das questões das proximidades das escolas e das máquinas nas escolas, etc., e das chamadas gorduras trans, que são gorduras que a indústria utiliza e que são consideradas, confesso a minha ignorância a este nível, e que são consideradas muito mais perigosas para nós do que gorduras naturais. 

Ora bem, como é que se alteram os hábitos alimentares de uma população? E não é por acaso que eu escolho a palavra “hábitos”: é que os hábitos enraízam-se e, além disso, por um lado, nós falamos com muito orgulho e bem da dieta mediterrânica, mas nem todos os que falam dela com muito orgulho a praticam. Isto pressupõe uma educação da população, aquilo que, em geral, hoje em dia, se denomina uma maior literacia da saúde para que esses bons hábitos alimentares, normalmente dizemos: “de pequenino torce-se o pepino”, aqui é: “de pequenino se habitua as pessoas a fazerem uma alimentação saudável” e também tem de se mostrar às pessoas que comer bem não é uma tortura nem é deixarmos completamente tudo o que nos agrada. Já não sei quem é que foi que disse, penso que foi Mark Twain, Mark Twain dizia: “No fundo, o que nós devemos fazer pela nossa saúde é só comer e beber coisas que não nos dão prazer nenhum e fazer coisas que também não nos dão prazer nenhum”. Este fazer coisas também é importante, não basta ter cuidado com a boquinha. Isto também tem a ver com o exercício, quer queiramos quer não aqui há um equilíbrio que é preciso ser mantido que é as calorias que ingerimos e as calorias que gastamos. Quando eu vejo alguns anúncios nas nossas televisões sobres alguns hambúrgueres, eu tenho logo a sensação que só por aquele hambúrguer eu teria de correr uma maratona porque uma pessoa quase que vê as calorias a saltarem. 

E isto é importante a um outro nível também, que é os chamados distúrbios alimentares. Um erro habitual na nossa sociedade é decretarmos que os distúrbios alimentares mais clássicos só são distúrbios que afetam os mais jovens, por exemplo, a bulimia, por exemplo, a anorexia nervosa. Não é verdade. E, perante esses distúrbios alimentares, há coisas que também temos o direito de pedir a quem tem o poder para o conceder, que é: nós temos nutricionistas a menos no Serviço Nacional de Saúde, nós muitas vezes não temos capacidade em termos de recursos humanos e de tempo de consultas para abordar estes temas, e isso depois paga-se caro porque nós estamos a falar é de evitar doenças que depois sobrecarregarão esse Serviço Nacional de Saúde. Estava eu a dizer-vos que a questão psicológica é importantíssima porque nos distúrbios alimentares, sejam estes dois ou seja algo que hoje em dia muito nos preocupa que é o chamado “Binge Eating” e “Binge Drinking”, o que é que isto significa? São pessoas que podem passar dias a comer, não estou a dizer necessariamente em dieta, mas a comer com toda a normalidade, de repente, num intervalo de poucas horas, comem e bebem de uma maneira perfeitamente exagerada. Hum? Estava eu a dizer: todas estas situações são situações que implicam, vamos lá ver, de apoio médico. Um dos meus professores dizia: “perante uma anorexia nervosa, aquilo que é fundamental antes de tudo o resto é salvar a vida à pessoa”, se o caso é tão grave como isso. Depois, vamos ter de entender as razões, é verdade. O que significa que aqui estamos a falar também de apoio psicológico. Uma última palavra: quando nós pedimos aos nossos utentes, quando nós aconselhamos os nossos amigos, quando nós conversamos sobre isto, e quando dizemos que é preciso uma dieta equilibrada, não nos podemos esquecer que uma dieta equilibrada também nos sai do bolso. 

Quando vemos nas televisões documentários com crianças, e não só crianças de países subdesenvolvidos, com enormes ventres, aquela gente não esteve a comer demais, aquela gente está subalimentada e, portanto, para variar, as questões económicas têm de ser levadas em contas, aliás, Brecht escreveu uma vez isto: “Para quem tem uma boa posição social, / falar de comida é coisa baixa. / É compreensível: eles já comeram”. É por isso que o meu irmão de afetos, o Prof. Manuel Sobrinho Simões, de uma maneira ou de outra, nas suas intervenções, acaba sempre por dizer: “antes de tudo o resto, reduzamos a pobreza”. É o primeiro dos degraus. Fiquem bem.

 

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