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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #burnout
  • #stress
Burnout 1
Quando estamos exaustos, é muito difícil estarmos motivados.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Hoje vamos falar de Burnout. Como é que as histórias clássicas começavam todas? Era uma vez... Bom, era uma vez, um homem chamado Freudenberger que em 1974 publicou um artigo e que é considerado, digamos assim, o artigo que deu o pontapé de saída ao conceito Burnout. Agora, tantas anos volvidos e sendo em 1974, quase que dá vontade de nos perguntarmos: será que tendo acontecido o 25 de abril em 1974, o antigo regime também não estaria de certa forma em Burnout para ter acontecido o que aconteceu? Freudenberger observou isto em si mesmo, o que não é nada raro na história de Medicina e da Ciência. Desde logo, gente que experimenta medicamentos em si mesmo, gente que descreve determinadas patologias em si mesmo… Freudenberger aparentemente tinha, ele próprio, observado o fenómeno de Burnout em si.

O que é que traduz isto? Não é possível falarmos português? Eu sorrio-me porque há tanta gente, hoje em dia, a queixar-se "Credo, mas é tudo em siglas, é tudo em inglês", mas a verdade é que é muito difícil não desaguarmos na palavra. Mas Burnout traduz uma exaustão. E uma exaustão física e psicológica e, sobretudo, em contexto laboral que traduz-se como? Em falta de motivação - e nós, quando estamos exaustos, é muito difícil estarmos motivados - e numa progressiva incapacidade de atingirmos os objetivos a que nos propomos e que muitas vezes nos são impostos. Se estamos a trabalhar, há objetivos que devem ser atingidos. Freudenberger disse assim: há consequências desta exaustão. Há consequências tanto físicas, como psicológicas. Desde logo, quando lhes falei de falta de motivação, estamos claramente no reino do psicológico, mas não é nada raro que apareça a ansiedade, que apareça a irritabilidade, aquilo que no calão da minha máfia se chama a labilidade emocional.

Podemos de um momento para o outro explodir, quem está à nossa volta não se apercebe, mas olhem que em termos físicos... Vejam isto: nunca ouviram a expressão úlceras de stress? Sabem como é que a expressão verdadeiramente surgiu? Não fomos nós, os psiquiatras. Os nossos colegas cirurgiões começaram a chamar-nos à atenção que havia determinadas úlceras que eram operadas mas que voltavam passado algum tempo. E quando se foi estudar essas pessoas, chegou-se à conclusão que havia muito de tensão nervosa, de stress, na génese do aparecimento dessas úlceras e que, portanto, o tratamento cirúrgico, só por si, não conseguia resolver a questão. Agora vejam: se as condições laborais não são boas, se são pesadas para aquela pessoa, se acontece o Burnout, estamos em presença de quê? De um stress que é um stress contínuo. E dir-me-ão "Está bem. E stresses às vezes muito violentos e de curta duração?". Qual de nós é que teria o mau gosto de duvidar do que nos acontece quando morre uma pessoa amiga, quando há uma situação complicada na nossa vida como sermos despedidos, como um divórcio, etc.? Claro, são stresses agudos e é muito difícil, por vezes, de os ultrapassar mas, por outro lado, o stress crónico...

Quando eu comecei a minha carreira - ou se quiserem, quando que comecei a minha curta carreira - em medicina geral, tanto em Matosinhos como em Vila Nova de Gaia, havia doentes que me diziam assim em relação aos reumatismos, às doenças crónicas em geral, diziam-me assim " Ó Sr. dr., elas não matam, mas moem". O que é que isto significava? São doenças que não matam, mas que nos acompanham até ao fim da vida. No stress crónico isto torna-se muito complicado porque a pessoa acorda segunda-feira com a tal falta de motivação e sabe que na segunda-feira seguinte vai ser a mesma coisa, que no mês seguinte vai ser a mesma coisa, que há grandes possibilidades de no ano seguinte ser a mesma coisa. E este tipo de stress... Isto também depende, como é evidente, das caraterísticas de cada um de nós. Alguém que é um perfeccionista, com mais facilidade será vítima de Burnout. Um pessimista também, digamos assim, será mais atreito. Há outras pessoas - hoje em dia usa-se muito essa palavra - que têm mais resiliência áquilo que é desagradável e portanto aguentam-se melhor, mas mesmo o verbo "aguentar" tem uma tonalidade de: o mais que podemos aspirar é sobreviver, mas modificar a situação, nem tanto. Estamos a falar de condições de trabalho - nem sequer vou falar de assédio laboral, quando se põe alguém a olhar para uma parede, não consigo imaginar que tipo de stress é esse - mas estamos a falar de tarefas pouco claras, estamos a falar de relações pouco solidárias com colegas e sobretudo com chefias, digamos assim. Estou a falar de sobrecarga de trabalho. Vou-lhes dar um exemplo. Há muitos anos atrás, eu recebi pessoas que trabalhavam numa determinada empresa e que trabalhavam naquilo que se chama cadeias de produção e que tinham que produzir um determinado número de componentes por ano e passavam o ano inteiro a tentar chegar a esse número, o que não era fácil. E, quando o conseguiam atingir, no ano seguinte, em janeiro, o objetivo que lhes era colocado era superior. Estão a ver o stress que isto provoca? Qual é um dos grandes problemas de tudo isto?

É que este stress não fica circunscrito ao trabalho das pessoas. Espalha-se e vem para a outra vida das pessoas, cá fora. E portanto, não estamos a falar de uma vítima de Burnout, estamos a falar de uma vítima de Burnout e de um sistema familiar, de amigos, etc., que vai sofrer as mesmas consequências. Isto é uma situação grave em termos da saúde física e mental das pessoas, mas também em termos de produtividade porque em muitas dessas pessoas, a sua baixa produtividade é enorme. Podemos estar - e quantas vezes estamos - em presença do chamado presentismo: a pessoa está no local de trabalho, mas não rende. Estas pessoas devem pedir ajuda? Sim, mas há outra ajuda que é obrigatória que é as entidades empregadoras destas pessoas, devem estar atentas para conseguirem distinguir sinais precoces de Burnout e depois terem respostas que permitam a estas pessoas resolver esse problema. Por hoje, ficamos por aqui. Até breve.

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