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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Burnout 2
O burnout constitui uma crise de saúde pública, está a minar a relação médico-doente.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Como vos tinha prometido, hoje vamos falar do Burnout, mas especificamente na classe médica.

Eu vou começar por vos fazer um pedido de desculpas. Em geral, eu não tenho comigo nem livros, nem folhas de papel, mas aqui - do alto ou do baixo dos meus 70 anos- eu não me quis arriscar a deixar algo de importante fora e, portanto, vão ter que aturar as minhas notas. E nem sequer me vou referir, a não ser por arrastamento, à realidade portuguesa, para terem bem a noção de como isto é um problema grave e é um problema global. O que eu vos trago é os resultados de um estudo de "A sociedade Médica de Massachusetts" e da Universidade de Harvard. Portanto, acima de qualquer suspeita. E o que é dito à cabeça é que o Burnout, neste momento, constitui nos Estados Unidos uma crise de saúde pública, está a minar a relação médico-doente e implica que haja risco para os cuidados de saúde a nível nacional. Bom, em termos de resumo, é de pôr os cabelos em pé. Agora vamos ver quais são os argumentos aduzidos. Os argumentos aduzidos, desde logo... e é muito curioso, porque no meu próprio consultório, as pessoas vêm a um consulta de psiquiatria mas falam da sua trajetória médica geral - até porque nós precisamos de o saber - e eu cada vez ouço mais vezes pessoas a dizerem-me assim "Ah, o meu médico de família..." - ou a minha médica de família - "... é muito simpático, mas hoje em dia praticamente não olha para mim, só olha para o computador". E a pessoa sente-se desvalorizada, porque a relação médico-doente é, acima de tudo, um diálogo entre duas pessoas. E eu sou obrigado também a explicar, a dizer "Olhe, desculpe, puxar a brasa à minha sardinha, mas sabe que os meus colegas têm que preencher determinados campos, têm que olhar para o computador, não é só o senhor, ou a senhora que está a sentir-se frustrada, eles também". E neste estudo, os médicos não têm medo de trabalhar, o trabalho é que não tem nada a ver com os doentes e os torna infelizes por causa disso. E também torna os doentes infelizes, porque eles sentem que o sistema - o sistema de saúde - está-lhes a falhar. Não se pode ser mais transparente. E em relação ao Burnout, os números são - não tenho medo de empregar a palavra - assustadores.

Mais de uma dúzia de inquéritos dizem o Burnout pode afetar, nalguma parte do seu trajeto profissional, entre 50 a 78% dos médicos americanos. Isto significa que, além de haver cansaço, há distanciamento. Ou seja, os profissionais, seja na medicina seja em qualquer outra profissão, passam a ter uma visão da sua profissão que é mais distanciada. Na profissão médica isto é ainda mais catastrófico, porque a profissão do médico é, antes de tudo o resto, relacionar-se com o doente. Não estou a falar de especialidades mais técnicas, estou a falar - se quiserem - do primeiro embate, nomeadamente, estou a falar dos cuidados de saúde primários, quando as cargas de trabalho são exageradas. E aqui também em Portugal - não só em Portugal - temos de ter uma enorme cautela em não privilegiar a quantidade dos cuidados médicos prestados em detrimento da sua qualidade, porque a pedra de toque do exercício da medicina é a qualidade. Não é podermos debitar números infindos de consultas, de atos, etc., quando, muito provavelmente, uma alta percentagem deles não foram satisfatórios para quem recebe e para quem presta. E depois, há outra questão muito complicada. Num inquérito nacional publicado nos Estados Unidos o ano passado, 10,5% dos médicos inquiridos disseram que tinham cometido um erro grave na sua prática. Quando se vai estudar estes profissionais, chega-se à conclusão que a percentagem deles que apresentavam sinais de Burnout era muito alta. Ou seja - e isto também é completamente La Palisse - quanto mais exaustos nós estamos, mais provável é que façamos asneiras. E as nossas asneiras são as asneiras mais perigosas de todas porque são asneiras à custa da saúde de quem nos procura. Bom, quando se vai apreciar o que está em causa, vai-se encontrar dois aspetos que eu gostaria de salientar.

Primeiro, isto já não vai lá com pequenos truques. Um colega meu diz assim "Isto, agora, não vai apenas de uma outra aula de yoga nos hospitais". E eu, devo-vos dizer que pensei assim "De yoga ou, eventualmente, de descarga emocional tocando bateria", se não a roubaram, eu tenho uma nas minhas costas. Não, é necessário algo de mais estruturado. E então o que é que é proposto? É proposto que haja colegas meus com muita experiência que tenham por missão, não é sequer, entre aspas, a diminuição do erro médico, é o bem-estar dos clínicos nas diferentes instituições de maneira a que, sim, se diminua os erros médicos, mas também que se zele pelo bem-estar físico e emocional dos meus colegas. É que muitas vezes... E isto não é mais do que o resultado de um problema muito alargado que é a descriminação de quem fraqueja psicologicamente. Eu ia-vos dizer muitos dos meus colegas que necessitam de ajuda, pensam muito antes de pedir ajuda na sua própria instituição porque têm medo de via a ser descriminados, considerados menos aptos para o serviço, etc. E, portanto, nos Estados Unidos é proposto que os meus colegas possam recorrer a serviços de saúde mental, nomeadamente, em instituições que não são as suas para este receio diminuir.

É com muito prazer que acabo este episódio com uma nota de otimismo: é que o Hospital e S. João e a Ordem dos Psicólogos elaboraram um protocolo, precisamente para começar a zelar melhor pela saúde mental e física dos profissionais que apresentem sinais de Burnout. Faço votos para que esta experiência, o mais depressa possível, se estenda a outras unidades do País. Fiquem bem. Até à próxima. 

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