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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Cuidadores Informais
Em Portugal existem mais 800 mil cuidadores informais.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Hoje vamos falar de cuidadores informais. Porquê a necessidade de um adjetivo? Podíamos ter dito apenas cuidadores e não seria errado. O que acontece é que há diferentes tipos de cuidadores. 

Suponhamos que nós, profissionais de saúde, além de nos encarniçarmos - e bem - numa luta pela cura, também estamos, como é nossa obrigação, a cuidar de quem nos procura: somos cuidadores, mas somos cuidadores formais. Eu estou a falar de outro tipo de pessoas. Estou a falar de pessoas que cuidam, muitas vezes de familiares, mas não obrigatoriamente; que cuidam muitas vezes por uma questão afetiva, mas não obrigatoriamente; mas que cuidam não sendo remunerados por esses cuidados. 

A esmagadora maioria são mulheres. E vocês dirão: "Que enorme surpresa...!". Exato, não é surpresa nenhuma. As mulheres são as principais cuidadoras na infância, as mulheres são as principais cuidadoras dos mais velhos... Bom, mesmo no que se convenciona chamar na idade adulta, nós temos hoje os trabalhos que, em termos fisiológicos, com variáveis tão diversas como a tensão arterial, a frequência cardíaca, a frequência respiratória, nos mostram como as mulheres, por sistema, estão mais preocupadas - suponhamos, num casal heterossexual - estão mais preocupadas com o bem-estar do casal e da família e se sentem mais responsáveis por esse bem-estar do que os homens. Isto vem desde tempos imemoriais. Sei lá, antes da medicina, as mezinhas, as formas, entre aspas, artesanais de tentar obviar a problemas de saúde, eram sobretudo obra das mulheres, também. Mas isso, embora fascinante, é outro tempo. 

Pensemos em números: muitos zeros. Em Portugal, calcula-se 800 mil. 800 mil, nós andamos sempre naquela coisa "Ainda somos 10 milhões, ou já não somos, mais emigração...", bom, não vamos cortar as unhas rentes, admitamos mais ou menos 10 milhões: 8% da população. Vamos por baixo, porque estar a calcular pelo salário mínimo, não me parece, sequer, muito justo. Seguramente, não justo para todos os casos - mas vamos por aí. Pago dessa maneira, este trabalho corresponderia a 4 mil milhões de euros/ano. Lá se ia o superavit. Quer dizer, ia o superavit e ia mais o equilíbrio das contas. Uma pessoa diz: "Mas calhar, era justo". Se calhar era. E há dinheiro? Não, não há. Há vontade política? Aqui, é melhor ter alguma precaução, porque a importância deste trabalho é de tal ordem, que algo quer não é muito frequente, ao menos em termos teóricos e globais, foi conseguido em Portugal e noutros países, que é a consonância de pontos de vista dos políticos. E não é de admirar, não é? Qual é o político que teria a desfaçatez de vir dizer à população e aos seus pares: "Os cuidadores informais? Ninguém os obriga." - Porque é falso, as situações de vida obrigam, não é? - "E portanto, isso não nos diz respeito, em termos do poder estabelecido, das estratégias, da Segurança Social". Não, não é verdade. Depois há diferenças e nós estamos a verificá-las em Portugal, em termos de, para além do estatuto do cuidador informal, até que ponto é que se consegue ir. Porquê? Vocês vejam: estas pessoas estão sujeitas a um stress crónico - porque este cuidar prolonga-se no tempo - a um stress crónico, tanto a nível físico como a nível psicológico. Têm, ou teriam - porque muitas delas não têm, na realidade - mas teriam direito a formação para aquilo que fazem, mas depois deveriam ter direito a outras coisas. 

Suponhamos: se alguém deixa o seu emprego e vem para casa cuidar de um familiar o que é que lhe acontece? Desde logo, temos que colocar a hipótese, para não dizer a realidade, de subsídios, mas não é só isso. A flexibilização de horários de trabalho, de maneira a que, pelo menos nalguns casos, seja possível fazer as duas coisas; outras questões que olhem, não vos vou mentir, para um médico não surgem de imediato, as carreiras contributivas. Se algumas pessoas deixam de trabalhar, depois no fim da vida, como é que vai ser a questão das reformas? Tudo isto tem que ser levado em conta se nós queremos realmente que esta população sobreviva em boas condições, porque é quase tristemente irónico pensarmos que eles e elas estão a cuidar de outras pessoas, mas se não são cuidados vão - desculpem o termo - rebentar física e psicologicamente. Daí, a necessidade de apoio médico em termos gerais, de apoio psicológico em particular. E sobretudo porque antigamente predominava aquilo a que nós chamamos o cuidado intergeracional, ou seja, os mais velhos eram cuidados por pessoas mais novas. Não era tão raro como isso - lá, no antigamente - que houvesse até uma filha que sabia desde a infância que não ia casar, porque estava destinada a cuidar dos pais. Agora, com as questões da natalidade, cada vez mais nós temos os cuidadores intrageracionais, ou seja, um idoso ou uma idosa está a cuidar de um idoso ou de uma idosa. O que significa que, aos problemas de um, juntam-se os problemas de outro. Como veem, numa sociedade cada vez mais envelhecida, isto é um problema premente. Se tiveram paciência de me aturar até aqui, eu deixo-lhes um pequeno doce. 

O Manuel António Pina é um homem que nos deixou não assim há tanto tempo e que era muito amado no Porto, seja a cidade, seja o distrito. Tem um poema que se chama Completas de que vos lerei apenas os últimos quatro versos, que rezam assim: "Protege-me com ele, com o teu olhar, dos demónios da noite e das aflições do dia. Fala em voz alta, não deixes que adormeça, afasta de mim o pecado da infelicidade". Nós gostaríamos que as pessoas - já não digo, sequer - que fossem todas felizes, mas que tivessem todas o mínimo de bem-estar. Mas não basta o olhar - o olhar, pode reconfortar-nos - é preciso a prática quotidiana, o cuidar.

Voltemos ao início. Os cuidadores informais são indispensáveis e têm direito a ser tratados com a dignidade que qualquer ser humano - ainda por cima, desempenhando funções tão nobres - merece. Por hoje, ficamos por aqui. Fiquem bem.

 

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