Ao navegar neste site está a dar o seu acordo às Condições Gerais de Utilização e à Política de Privacidade e Proteção de Dados Pessoais. Leia-as atentamente.

POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #emocional
  • #depressão
Depressão
Portugal é dos países em que as pessoas estão mais medicadas com ansiolíticos e antidepressivos.
TRANSCRIÇÃO

Disse-vos que não eram temas para pressas e, por isso, cá estamos de novo. Mas afinal o que é isso da depressão? 

Não há uma depressão, mas há sim aspetos que é difícil que não estejam presentes. É público que eu próprio passei por uma depressão, portanto, eu garanto-vos que é um saber de experiência feito. Uma das coisas que mais nos impressionam nas pessoas deprimidas é a sua lentificação. Até física, diga-se de passagem, mas sobretudo psicológica. É como se esta máquina passasse das 78 para as 33 rotações. Além disso, existe em nós uma grande dúvida sobre a capacidade da máquina, sobre a sua eficácia, nós estamos inseguros. Além de estarmos inseguros, não é raro que tenhamos tendência para assumir responsabilidades e culpas que não são nossas. Qualquer coisa corre mal e, mesmo sem espelho à frente, nós temos tendência, depois: "Fui eu que falhei, fui eu que não consegui". 

É verdade que uma visão a preto e branco do que era a depressão, hoje em dia já não é aceitável. Onde ainda ensinei essa visão. Dizia-se assim: "Quem está deprimido, há três aspetos que imediatamente surgem. A falta de apetite, com o emagrecimento, a falta de desejo sexual e a insónia". Não é assim tão simples. Há pessoas que estão fortemente deprimidas e que engordam não sei quantos quilos. Há pessoas que estão deprimidas e que, pelo contrário, têm uma hiperatividade sexual, é uma autêntica fuga à depressão, digamos assim. E há pessoas que estão deprimidas que dormem mais horas do que dormiam, em geral. Portanto, tenhamos cuidado quando vamos para tentativas de diagnóstico muito esquematizadas. E nem vou falar de depressões, por exemplo, nas crianças que são, muitas vezes, bem mais difíceis de diagnosticar, deixarei isso para os meus colegas da psiquiatria infantil. Chamarei a atenção para um aspeto: enquanto nalguns menores os sintomas depressivos são, predominantemente, psicológicos, noutros, é como - é como não, é mesmo isso - a depressão fala muito mais através do corpo. Então temos à frente pessoas que apresentam queixas físicas e que se forem esmiuçadas - e se quem o faz tem preparação, diga-se de passagem - o pano de fundo é uma depressão. Chama-se a isto somatizar, esta depressão apresenta-se através de sintomas físicos. 

Há muitos anos, eu tive um professor na Suíça que dizia assim: "Pedir a alguém que sofre de depressão que saia dela sem ajuda, é como pedir a alguém que se está a afogar e não sabe nadar que se mantenha à tona, puxando pelos seus próprios cabelos". Vocês dizem-me: "E uma depressão não pode passar?". Pode, mas é muito mais seguro que haja ajuda. E quando falamos de ajuda há algo que tem que ser sublinhado. Os nossos amigos, os nossos familiares, com a melhor das intenções tentam - e ajudam-nos, termos apoio de quem nos ama e a quem nós amamos é importantíssimo - mas, de vez em quando, esse apoio é um apoio que até nos pode fazer sentir mais deprimidos, que é aquela coisa, "Ah, o que tu precisas é de sair. Precisas de te divertir mais. Anda daí, vamos jantar fora". E o que acontece é que muitas vezes a pessoa sente-se completamente incapaz de o fazer - pelo menos, no início, digamos assim, do processo - e isola-se. 

É evidente que isto é uma pescadinha de rabo na boca, porque a pessoa isola-se e não está - posso garantir-vos - com pensamentos de céu aberto e sol brilhante na cabeça, mas temos que ter a noção que em determinadas fases da depressão, estar a pedir determinados comportamentos à pessoa, é excessivamente otimista, ela não pode. Bom, vamos partir do princípio que há ajuda. A dois níveis: tudo a favor da ajuda medicamentosa, mas nem pensar - na minha opinião - que a ajuda seja apenas medicamentosa. E, na ajuda medicamentosa, temos que ter a noção de dois aspetos: primeiro, Portugal é um dos países em que as pessoas estão mais medicadas, tanto com ansiolíticos, como com antidepressivos e, portanto, é preciso bom senso, cautelas e caldos de galinha. Até por uma razão: normalmente não se fala muito disso, em relação aos antidepressivos, fala-se mais em relação aos ansiolíticos. Muitas das pessoas depois dir-nos-ão que deixar os antidepressivos não é nada fácil. E não é, aquilo que chamamos o desmame. E, portanto, devemos tentar encontrar o quê? A dose ideal de medicação que tem o máximo efeito com o menor - Como é que que se há de pôr isto? - com o menor desconforto colateral, porque as drogas têm efeitos colaterais. Olhem, sobre a sexualidade, sobre a memória... Quantas vezes já ouviram aquela frase "Ah, não sei, ele parece um vegetal"? Porquê? Porque eventualmente está sobre medicado. E isso também não é aceitável. Quando as coisas correm bem, quando... Lembro-me de alguém que um dia me disse assim, no meu consultório: "Quando eu vim aqui a primeira vez, aquele prédio estava a começar a ser construído". E depois disse-me: "Está quase pronto", e fez um sorriso e disse -"Talvez haja qualquer coisa de parecido, comigo". E isto é muito curioso. Quando eu lhes dizia há bocado não se pode pedir coisas que as pessoas não podem dar, isto não significa que elas não tenham que fazer um esforço. Eu lembro-me disso, de não me apetecer sair com os amigos, de fazer um esforço. E lembro-me da surpresa agradável que foi o dia em que eu percebi que já não precisava de fazer esforço, que já havia prazer na questão. 

E a pouco e pouco podemos sair da depressão. Já falei muito. Deixo-vos apenas, não o poema todo - vou pedir desculpa a Nuno Júdice - mas os últimos versos: "Sinto colar-se-me às costas um resto de noite;" - isto chama-se Confissão - "…e não sei voltar-me para a frente, onde amanhece". No fundo, sair da depressão é isto: é estarmos... É a imagem clássica da luz, ao fundo do túnel. Quando estamos em depressão não há luz nenhuma. E, portanto, o simples facto de aparecer essa luz, significa que nós já acreditamos que vamos sair. E esse acreditar - posso garantir-vos - também faz parte do tratamento. Fiquem bem. Até à próxima.

 

Subscreva a nossa newsletter e seja o primeiro a saber do que se fala por aqui.

Para que precisamos dos seus dados?

Os dados pessoais por si acima facultados serão tratados para envio da newsletter que subscreve. Se nos der o seu consentimento, iremos também usar a sua informação para envio de comunicações relativas a produtos e serviços da Fidelidade que poderão ser do seu interesse. Recordamos-lhe que tem o direito de retirar o seu consentimento a qualquer momento. Os seus dados nunca serão utilizados por terceiros ou entidades externas à Fidelidade.



Gostaria de ser informado acerca dos produtos e serviços da Fidelidade?

Conheça aqui a Politica de tratamento e Proteção de dados Pessoais