Ao navegar neste site está a dar o seu acordo às Condições Gerais de Utilização e à Política de Privacidade e Proteção de Dados Pessoais. Leia-as atentamente.

POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #conjugal
  • #quarentena
Desafios Conjugais
Os casais vão ter de se preparar para passar maus bocados.
TRANSCRIÇÃO

Olá, hoje vamos mudar completamente de campeonato. Vamos falar da influência... das influências do isolamento social preventivo, vulgo quarentena, sobre as dinâmicas do casal. 

E quando eu pensei falar-vos disto, veio-me de imediato ao espírito uma célebre frase da Dona Agustina, que escreveu um dia, qualquer coisa deste género: “Numa relação, nomeadamente num casamento, é muito complicado conhecer o outro, porque há tanta proximidade, que há um efeito de desfocagem - tenho quase a certeza que a palavra é mesmo essa, desfocagem -  e portanto, não há lugar a conhecer-se, só há lugar a amar.” É uma coisa lindíssima, porque é dizer-nos assim: “Nós estamos tão juntos...” Bem, as formulações, por exemplo, clássicas do casamento era um só corpo, uma só alma, etc. Estamos tão juntos, que não temos, no fundo, isenção e, às vezes, nem sequer temos vontade para verdadeiramente analisar como é o outro. Portanto, só fica espaço para o amor - perdoarão o ceticismo - quando ele ainda existe, como é evidente. Ora bem, então, e o que é que está por aí a acontecer? Com os casais - já sei o que estão a pensar - os casais e, hoje só vamos falar dos casais. A ganapada há de vir mais para a frente, se calhar não fica aviada, como se diz na minha terra, num só episódio. Estamos a falar dos casais. Como é que estarão os casais a lidar com isto? Para variar, das mais diversas formas. Se quiserem, muito poucos psiquiatras e psicólogos não vos dirão qualquer coisa que seja uma variação em ré menor do que vos vou dizer a seguir. Que é assim: a maneira como a relação se mantém e resiste a estes tempos, depende muito do tipo de relação e da qualidade da relação antes. O que, se quisermos ser picuinhas, não deixa de ser uma Lapalissada: se uma relação é boa, é muito mais provável que aguente este stress. Porque é um período de stress, num confinamento obrigatório. E aqui, eu estou com remorsos de não vos ter dito uma coisa... logo no segundo programa, que é: nós temos hoje a noção, sabemo-lo perfeitamente que quando estes períodos de quarentena são quarentenas voluntárias, as consequências psicológicas para as pessoas são muito menos duras do que quando estamos em presença de quarentenas obrigatórias. Chama-se a isso de quarentenas altruístas - a pessoa tem a noção que está a desempenhar um papel quando se separa, digamos assim, do resto da sociedade. Estava eu a dizer, isto é um bocado La Palisse. Pronto, se a relação era boa, há um stress duro, a relação aguenta-se melhor. A relação está má, há fissuras, é muito mais provável que essas fissuras se acentuem. E em termos gerais, isto é verdade. Mas uma situação deste tipo, com este stress - aquilo que nós chamamos, muitas vezes, uma situação limite - pode ter consequências inesperadas. 

Por exemplo: duas pessoas que estão numa relação que está periclitante, numa situação de sobrevivência física e da própria relação, podem descobrir que, espontaneamente, as suas prioridades se alteraram e a relação até melhorou. De certa forma, perante a ameaça uniram-se e a relação parece voltar a consolidar-se. Depois, há casais que - pelo menos nos períodos iniciais, descrevem isto como uma lua de mel: estão juntos. Estou-me a lembrar de uma terapeuta de casal americana que escreve preto no branco - e ainda bem. Há uma coisa, no entanto, que eles têm de saber: com o passar do tempo, vão surgir conflitos - o que é inevitável. Nós começamos a rilhar, nós estamos irritáveis, nós estamos numa situação que não é a situação mais habitual. Em geral, cada um de nós tem a sua profissão: sai, re-entra, tem coisas para contar ao fim do dia. Não é por acaso que, muitas vezes, os meus colegas dizem: “Quando as pessoas trabalham no mesmo sítio, um dia inteiro, às vezes é mais fácil surgirem determinados problemas”. É, não deixa de ser uma vantagem - as próprias pessoas o dizem - de que cada um de nós venha de uma determinada realidade e que possa trocar impressões com os outros. Mas depois, quando vocês vão ler a chusma de artigos que têm aparecido aí com sugestões para o casal passar melhor, há uma coisa desde logo que é preciso mantermos clara no nosso espírito: grande parte dessas sugestões são para a classe média e classe média alta. É assim: se estão os dois em teletrabalho, um com um computador numa sala o outro com o computador noutra sala; se estão com necessidade de estarem um pouco sozinhos com vocês mesmos - e, às vezes, temos necessidade disso - então, um está na sala de estar e o outro vai para o jardim... Não notam nada, nisto? E quem está encafuado num T1? Já não estou a falar sequer dos sem-abrigo - não têm sequer casa. Portanto, mais uma vez - e já falámos disto, em relação ao Professor Henrique de Barros - nós não podemos ignorar o que são as condições concretas de vida das pessoas. 

Bom. E portanto, estes casais... A mesma terapeuta americana, faziam-lhe uma pergunta numa entrevista e diziam: “Sabe que está a começar a haver uma noção de que os divórcios na China aumentaram e que também pode acontecer o mesmo nas outras zonas do Globo?” Alguém dizia em relação à China: “Bom, mas os serviços tinham estado fechados.”. Está bem, isso pode atrasar ou pode justificar algum aumento. Mas todo o aumento, talvez não. Na realidade, os casais vão ter de se preparar para passar maus bocados. Mas também é preciso terem a noção que, quando uma relação passa maus bocados, ou seja, crises, e se as sobrevive - ou lhes sobrevive, peço desculpa - em geral, a relação fica solidificada. Portanto: é muito provável que haja divórcios? É. É muito provável que haja discussões? É. Mas, isso não significa que tenhamos uma visão fatalista do futuro das relações, sobretudo, se mantivermos no espírito algo extremamente importante: o outro, não é uma fotocópia nossa, é diferente. O outro não pode ser obrigado a fazer tudo como nós queremos, quando queremos. O outro não é um apêndice nosso. É no respeito pela sua liberdade, nem que seja dentro de 4 paredes, que a relação tem mais probabilidade de sobreviver. 

Para sobreviver à equipa de filmagem - não me alargando demasiado, vou ficar por aqui. Cuidem-se. Eu sei que sou chato. Cuidem-se.

 

Subscreva a nossa newsletter e seja o primeiro a saber do que se fala por aqui.

Para que precisamos dos seus dados?

Os dados pessoais por si acima facultados serão tratados para envio da newsletter que subscreve. Se nos der o seu consentimento, iremos também usar a sua informação para envio de comunicações relativas a produtos e serviços da Fidelidade que poderão ser do seu interesse. Recordamos-lhe que tem o direito de retirar o seu consentimento a qualquer momento. Os seus dados nunca serão utilizados por terceiros ou entidades externas à Fidelidade.



Gostaria de ser informado acerca dos produtos e serviços da Fidelidade?

Conheça aqui a Politica de tratamento e Proteção de dados Pessoais