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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Desafios da Longevidade
Viver é a coisa mais rara do mundo.
TRANSCRIÇÃO

Hoje, vamos falar de longevidade. E estou mesmo a imaginar meia dúzia de vocês a dizer: “Ah, maroto, já andas a repetir programas”. Não. Eu falei de envelhecimento, não é a mesma coisa. Está bem, são dois temas primos direitos, mas não é a mesma coisa. 

Quando falamos de longevidade, a primeira coisa que nos surge é a diferença, a diferença entre os dois sexos. Não é um assunto muito agradável, mas enfim. Por exemplo, Portugal: neste momento, a esperança de vida média para as mulheres é à volta de 83 anos, e para nós, homens, 77. Há razões para isto, pelo menos algumas nós conhecemo-las. Por exemplo, há a questão genética, nós, homens, somos XY, as mulheres são XX. O que significa que, como é que se diz nos automóveis? Que temos um pneu sobresselente, não é? As mulheres, aparentemente, têm genes duplicados, e, portanto, se há um falhanço de um lado, há uma cópia do outro que pode tentar, - já que fizemos a imagem que fizemos – pode eventualmente aguentar o pneu até à bomba seguinte. Nós não, temos XY. 

Mas não é a única razão que é adiantada pelos meus colegas. Os estrogénios nas mulheres, nomeadamente até à menopausa, parecem ter um efeito protetor. Isto é importante, é importante para a nossa prática médica porque há determinadas doenças que até à menopausa afetam sobretudo os homens, estou-me a lembrar sobretudo das doenças cardiovasculares, mas depois da menopausa têm tendência a afetar de modo igual os dois sexos, mas nós estamos muito, entre aspas, “programados”, para associar determinados problemas aos homens. Sei lá: o enfarte de miocárdio, o AVC, e isso pode provocar um desleixo não deliberado… O que é que eu quero dizer com isso? Pode fazer com que, depois da menopausa, nós não estejamos tão disponíveis para fazer determinados diagnósticos por causa daquilo que observávamos em idades mais precoces e é preciso ter cuidado, como é evidente, nessas situações. Depois, há questões comportamentais, ou seja, culturais, os homens têm mais comportamentos de risco, embora seja curioso notar que alguns deles, sobretudo o tabaco, nós vemos os homens a fumarem menos e, em contrapartida, as mulheres e os jovens a fumarem mais. O que nos leva a pensar, por exemplo, na adequação das campanhas de prevenção, se o alvo não está a responder – da campanha – é preciso tentar fazer mais e melhor. E também levanta outra questão, que é assim: será que as mulheres, no seu caminho duro, penoso mesmo, mas não completo, mas de qualquer maneira já muito calcorreado, para a igualdade de direitos e deveres têm de fazer as mesmas asneiras que os homens? A autonomia, a igualdade de direitos passa porquê? Por também fumar como os homens fumavam ou ainda fumam? É algo que nos deve fazer pensar se as condutas de risco são uma condição sine qua non para nos tornarmos adultos mais igualitários. Na Rússia, por exemplo, a questão do álcool, sobretudo a sacrossanta vodka, não é, é responsável por uma diferença brutal em termos de mortalidade. 

Mas, depois, nós temos de pensar nas consequências da maior longevidade em termos, olhem, dos serviços de saúde. Os serviços de saúde têm de se adaptar a ter uma população cada vez mais envelhecida, o que significa cada vez estarem melhor preparados para o cuidar e não o curar e terem equipas multidisciplinares que se debruçam sobre a pessoa, o palavrão da medicina é: de um modo holístico, ou seja de um modo global. Há não muito tempo atrás, a Sociedade Portuguesa da Oncologia teve a gentileza de me convidar para moderar uma mesa redonda em que estavam profissionais de saúde e estavam sobreviventes de cancro e cuidadores. E foi uma experiência magnífica porque nós, profissionais de saúde, temos de fazer isto mais vezes, ouvir quem está do outro lado, a experiência do que foi o contacto com os profissionais de saúde, mas não só: com os serviços em geral, com a maneira como são aceites, digamos assim, e como são cuidados. Eu ouvi por parte de uma sobrevivente de cancro esta história tristemente extraordinária. Chegou a determinados serviços, solicitou um determinado tipo de ajuda e foi-lhe perguntado: “Com quem é que vive?”, e ela disse: “Eu vivo com a minha mãe”. E a resposta foi: “Pois, mas os recursos são escassos e nem todos têm mãe”. E, portanto, esta pessoa não teve direito a nada, o que verdadeiramente me põe “de cabelos em pé”, não faz nenhum sentido. 

Depois, a questão da maior longevidade põe outro tipo de desafios, às mais diversas disciplinas, por exemplo, a arquitetura. A arquitetura tem de se preocupar com construir, digamos assim, não é só os lares de idosos, também são os lares de idosos, mas as cidades em geral, para pessoas que são mais velhas, com mais dificuldades de locomoção. Na questão dos lares de idosos. Olhem, o facto de não aprisionar as pessoas. O que é que eu quero dizer com isso? Outro dia, via um projeto magnífico de um arquiteto espanhol em que um lar de idosos era ao mesmo tempo centro de dia, ou seja, recebia pessoas que estavam lá durante o dia, mas iam dormir a casa, e tinha zonas de convívio com pessoas que não estavam lá, não estavam no centro de dia, era a população geral. E isto, como compreendem, é extraordinário em termos de manter as redes sociais que são indispensáveis, como outras experiências que é alojar de graça, em lares para os mais velhos, jovens universitários, e são as duas gerações que beneficiam. Uns porque têm alojamento gratuito, outros porque têm companhia e os primeiros porque aprendem com toda a experiência acumulada pelos mais velhos. 

Não vamos negar que esta maior longevidade põe problemas económicos à sociedade, mas que vamos negar é a visão “a preto e branco” que se tem, que é: os mais velhos saem caríssimos e, portanto, é impossível assegurar os cuidados de saúde de uma forma eficaz e aceitável. Primeiro, os mais velhos não dão só despesa, os mais velhos contribuem e muito para a saúde financeira de um país, muitos deles, porque continuam a produzir, outros pagam os seus impostos, etc. Segundo, a noção de que os mais velhos, todos eles, saem caríssimos não é verdadeira. Os custos acumulam-se sobretudo no 1, 2 anos antes morte. E, portanto, quanto mais saudável for o envelhecimento destas pessoas, menor será também a despesa. Um colega meu, é um direito inalienável, dizia numa entrevista que, para haver equilíbrio, ele achava que todos nós devíamos decidir deixar de viver aos 75 anos. Eu ainda só tenho 70, pode ser que daqui a 5 anos tenha mudado de ideias, mas não tenciono, por razões económico-financeiras suicidar-me aos 75, ele fará o que quiser. 

Por último, queria-vos deixar uma citação. O velho Oscar Wilde disse uma vez: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maior parte das pessoas limita-se a existir e isso é tudo.” Escutamos nós o envelhecimento, como o fizemos há meses atrás, ou a longevidade, uma coisa deve ser o objetivo de todos, dos interessados diretamente e de quem os rodeia, é: nós não estamos aqui só para sobreviver, estamos para viver na medida do possível na plenitude, e isso não tem preço. Até à próxima, fiquem bem.

 

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