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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Divórcio 1
Um simples papel assinado pode modificar o nosso comportamento
TRANSCRIÇÃO

Olá. Hoje vamos começar a falar de divórcio.

Reparem que eu disse começar, porque não nos vamos divorciar do divórcio apenas num programa. Vamos primeiro às palavras e ao peso que eles têm. E não só as palavras. Em termos gerais, quando se fala de divórcio, a nossa associação livre é com o casamento. As pessoas casam-se e depois - como dizia o Sr. La Palisse - umas continuam casadas, outras divorciam-se, mas nós sabemos - os números estão aí - que cada vez mais pessoas optam por viverem juntas, coabitarem, o que quiserem, e não casarem, seja no registo religioso, seja no registo meramente civil.

Poderemos falar de divórcio da mesma forma, para os dois grupos? Sob muitos aspetos, sim. O que nós temos é uma ligação entre duas pessoas que têm uma intenção de se projetar no futuro, mas provavelmente já descobriram a minha paixão pelas duas faces das moedas. De vez em quando, nós ouvimos pessoas para quem não é igual. Vou explicar a que é que me estou a referir. Cada vez é mais frequente ouvirmos casais que viveram juntos durante x tempo e depois decidiram - quase como os jogadores de futebol - pôr o preto no branco, assinar um papel.

Não é raro, diga-se de passagem, que isso coincida com o projeto de uma gravidez, ou mesmo com uma gravidez. Ainda há quem receie que o facto de não ser casado, possa eventualmente traduzir-se em dificuldades para os filhos. E é fascinante verificar que, enquanto há casais para quem esta transição de uma situação de coabitação para um situação carimbada, digamos assim, com o selo do casamento, é absolutamente pacífica e não se traduz em nenhuma modificação no quotidiano, há outros casais em que - até podem ser ambos - um deles vem dizer assim: "Qualquer coisa mudou lá em casa". E nós perguntamos: "Qualquer coisa?, "Sim, até mais do que uma coisa". E nós voltamos a perguntar: "E que tipo de coisas?". E, com frequência, uma das coisas que mudaram é: determinado tipo de atividades que existiam antes - por exemplo, se estivermos a falar de um casamento heterossexual - havia por consenso um dia por semana em que um deles saía com os seus amigos e o outro com os respetivos. Ela ia ver uma comédia romântica e ele um filme de guerra - estereótipos clássicos - ou ia pura e simplesmente jantar com os amigos e nunca tinha havido problema. E depois, um deles ou ambos, chegam aos nossos consultórios e dizem assim: "Eu agora chego a casa à sexta-feira à noite, ou ao sábado à noite e ele pergunta-me onde é que eu estive ou se eu acho que aquela hora é adequada". E as pessoas estranham, porque nunca tinha acontecido.

Isto mostra-nos como, às vezes, um papel - alguns de vocês estão a pensar, "um simples papel" - eu diria "um simples", entre aspas - papel assinado, em termos psicológicos, pode modificar o nosso comportamento, porque agora o outro é o nosso marido ou a nossa mulher. E de repente, surge à superfície um certo instinto de posse, uma ciumeira que não existia antes, uma preocupação com o que a sociedade pode pensar que não existia antes. E tudo isto porque em termos simbólicos, as pessoas passaram a estar casadas. Mas há algo que podemos dizer que é: quando falamos de divórcio, falamos de um projeto de vida, ou seja, de duas pessoas que iniciaram uma relação com a mais que legítima intenção de que ela se prolongue, o mais possível, no futuro, chegarem a um ponto em que decidem pôr fim a essa relação. Razões: aos molhos. Eu sei, nós temos tendência a pensar imediatamente que surgiu outra pessoa. E é verdade, às vezes, surgem outras pessoas. Não por acaso, é habitual que seja no trabalho. Basta pensar que muitos de nós passa mais tempo com os seus colegas de trabalho do que com os seus conjugues e às vezes falamos das nossas vidas, e às vezes trocamos confidências, e às vezes pode salta uma "chispa" e acontecer qualquer coisa, mas não só.

Temos de ter a noção que há situações em que duas pessoas, ao longo dos anos, evoluíram em direções diferentes, passaram a esperar da vida coisas diferentes. E começa a haver sintomas: uns silêncios... Algo que as pessoas nos dizem que é: "Ao fim de semana, saímos com um grupo de amigos". E nós, marotos e com muitos anos de experiência em cima, dizemos: "E sozinhos?". E a resposta vem honesta, cândida: "Sozinhos, hoje em dia, não saímos". Isto, em geral, não é de bom pronúncio. Quer dizer que aquelas duas pessoas já têm dificuldade em rir-se as duas, já têm dificuldade em considerar até um privilégio estarem só as duas, isoladas do mundo. Aquela relação pode estar a começar a ranger. Por outro lado, os divórcios fazem sofrer? Em princípio, sim. Há divórcios muito pacíficos, as duas pessoas podem chegar a esta conclusão, ao mesmo tempo, não sendo... não tem de ser no mesmo segundo, mas alguém levanta a questão e o outro está de acordo. Não é o mais habitual. Alguém toma uma decisão e a outra pessoa não está a navegar nas mesmas águas. Portanto, quer queiramos, quer não, temos uma pessoa que quer acabar aquela relação e outra que não quer. Simone Beauvoir disse há muito anos e escreveu que, por vezes, a nossa felicidade é conquistada à custa do sangue dos outros.

Quase todos nós gostamos de ficar bem na fotografia, e portanto, quem decide partir, às vezes até tenta convencer o outro, a dizer "É melhor para os dois"... Só falta dizer ao outro "Olha, pede-me para me ir embora", "Pede-me para te abandonar". Não é assim que as coisas acontecem, há sofrimentos envolvidos e que - mais não fora, em geral - até para quem sai - há um sentimento de frustração que é: houve um projeto que, quer queiramos ou não, falhou. Significa o fim do mundo? Não, pelo contrário. Eu estou convencido, ou convencida, que vou conseguir construir um novo projeto que funcionará, mas aquele, na realidade, falhou. Significa que estava destinado a falhar? Significa que nós hoje vivemos numa sociedade que torna mais fácil que as pessoas se separem, depois de terem investido menos nas relações, de uma forma - a palavra tem má reputação e, portanto, eu ia dizer leviana, façam de conta que não disse - de uma forma mais ligeira? Talvez. Esta sociedade tem uma sólida reputação de viver muito de um modo superficial, de as questões serem precárias. E, sobretudo, de haver muito pouca tolerância aos afetos desagradáveis como a tristeza, como a frustração.
Ora bem, nós podemos, entre aspas, decidir que ou a nossa relação e nunca há discussões e estamos sempre muito felizes e a vida íntima corre sempre sobre rodas, etc., ou então não estamos com a pessoa certa. Se entrarmos nesta filosofia de que não pode haver nenhuma crise, que não pode haver nenhum balanço, que não pode haver períodos maus na relação, então é muito mais fácil que acabemos a decidir: estou na relação errada. Um crise numa relação, tanto pode significar o fim dessa relação, como - se ultrapassada - pode contribuir para construir uma relação mais sólida, porque se calhar o outro, ou a outra, revelou-se um ídolo "pés de barro". Nós idealizamos muito as outras pessoas, mas depois do choque sofrido e digerido, a relação - arrisco-me a dizê-lo - torna-se mais humana. Eu não estou a dizer que isto é uma receita para os casais, estou a dizer que se acontece e se isto é digerido e ultrapassado, a relação pode-se tornar mais sólida. E, nesse sentido, ao tornar-se mais sólida, permitir que aquela intimidade seja uma intimidade - como diz o povo - em que seja possível dizer: na primeira todos caem, na segunda, cai quem quer.

Nós caímos na primeira, não vamos cair na segunda, porque tudo pesado e medido, acabamos por decidir que verdadeiramente queremos ficar juntos. Não, como era clássico, com justificações do género, na minha família não há divórcios; não, porque somos o casal que todos os amigos costumam apontar como o casal perfeito; não, num registo de divórcio debaixo do mesmo teto, em que há quartos separados, em que se faz vidas separadas, em que tem que, no fundo, aquilo que se está a salvaguardar é a imagem social, mas porque verdadeiramente as pessoas querem permanecer juntas. Nós não só vamos continuar juntos, como - como eu tinha previsto - não nos vamos divorciar do divórcio, vamos continuar a falar dele. Da próxima vez.  

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