Ao navegar neste site está a dar o seu acordo às Condições Gerais de Utilização e à Política de Privacidade e Proteção de Dados Pessoais. Leia-as atentamente.

POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #relação
  • #comportamento
  • #divórcio
Divórcio 2
As crianças podem não saber o que está a acontecer, mas a sua intuição é infalível.
TRANSCRIÇÃO

Como lhes disse, vamos voltar ao assunto, vamos ao divórcio. E há algo que talvez fosse importante - não vai ser o prato principal, hoje - mas talvez fosse importante sublinhar. Já Óscar Wilde falava disso que é uma certa oposição entre as ideias de paixão e casamento. No fundo, se quiserem, entre paixão e amor, porque na paixão tudo parece possível, todas as diferenças sofrem quase um processo - desculpem lá, se calhar hoje, por qualquer razão estou virado para a construção civil - um processo de terraplanagem. Não há diferenças, seja a nível político, seja a nível futebolístico... A paixão arrasa tudo, mas a paixão, até pela sua violência, não dura para sempre. E quando nós temos sorte, a paixão sedimenta e sedimenta no amor. O amor não é menos valioso e é muito mais difícil, porque temos que decidir que gostamos do outro com as suas idiossincrasias, com - entre aspas - os seus defeitos, as suas preferências que não são as nossas, etc., mas não se iludem: a verdadeira argamassa de uma relação que se prolonga no tempo, não é a paixão, é o amor.

O amor não é uma paixão de segunda categoria. Depois um dia falaremos disso com mais calma. Eu tenho vindo a referir a questão do divórcio, partindo sempre do princípio - em termos do meu discurso manifesto - que só estou a falar de duas pessoas. E posso estar. E não faltam exemplos, mas e há ganapada? Se há os «pilantrinhas» lá em casa? Ou - não quero ofender ninguém - se há os adolescentes lá em casa, que me matariam, se eu os apelidasse de «pilantrinhas»? É evidente que as situações são mais complicadas. Também é evidente que as idades não são as mesmas. Dir-me-ão: "Como é que os mais novos reagem?". Quanto mais precoces são as idades, mais difícil se torna para os ganapos, para as nossas crianças entenderem uma separação dos pais, não é? Muitas das razões estão perfeitamente... quando para os próprios pais as razões são claras, diga-se de passagem, mas muitas das razões estão para lá do seu entendimento. Depois nós, arrisco-me a dizer, ao longo de décadas e de séculos, não evoluímos muito no tipo de discurso que lhes apresentamos. São coisas estereotipadas do género: o pai e a mãe gostam muito um do outro, mas não podem viver juntos, ou não conseguem viver juntos, etc., o que também não ajuda muito. E depois há algo que nos esquecemos: eles podem não saber o que está a acontecer mas, na esmagadora maioria dos casos, a sua intuição é quase infalível. Eles sabem que as coisas não estão bem, que qualquer coisa mudou. No caso de gente mais velha, de adolescentes, ou... qualquer terapeuta familiar lhes dirá que, em determinadas sessões, nós os mais velhos, não resistimos a expressões que devíamos evitar. No aceso de uma discussão somos capazes, perante um rapaz ou uma rapariga, de dizer uma frase do género, "E eu que fiquei por tua causa", ou "Por vossa causa", etc. E pode-se ouvir uma resposta do género, "Mas para o ambiente que tínhamos lá em casa, se calhar mais-valia que vocês se tivessem separado". Ou seja - e que eu isso estou de acordo - se uma casa se transformou num deserto afetivo, mesmo estando lá todas as pessoas, é mais benéfico que existam duas casas em que há bons ambientes. E - e agora chagamos ao cerne da questão - admitamos que temos duas pessoas que são dois vértices de um triangulo e depois temos um - o (impercetível) filhos - são o outro vértice do triângulo. A separação destes dois adultos significa que esta linha que une estes dois vértices ou desapareceu, ou ficou a ponteado.

O outro vértice tem o direito que as linhas que unem cada um dos outros a si, não só se mantenham, mas sejam reforçados porque, como compreendem, a separação dos pais cria uma sensação de insegurança nos filhos. E, portanto, é necessário que duas pessoas que podem estar em desacordo em tudo o resto, naquilo que tem a ver com a educação dos filhos sejam capazes de dialogar, que evitem a terrível armadilha de haver uma versão do mundo de um lado e uma versão do outro, que evitem a perversão que é tentarmos - consciente, ou inconscientemente - fazer dos miúdos nossos aliados, numa luta surda ou pouco surda, que continua com o outro, porque isso psicologicamente é muito violento, porque eles continuam a gostar dos dois, em geral, excetuando em casos que podem acontecer até de extrema gravidade, diga-se de passagem. E estar a metê-los nas nossas refregas faz com que eles ficam presos em conflitos de lealdade. Isso pode ter consequências pesadas no futuro. Vocês dizem-me: "Todas as pessoas que se divorciam conseguem isso?". Até podem fazer uma pergunta profundamente mal-intencionada, que é: "E os psiquiatras" - abre parênteses- "como o senhor" - fecha parênteses - "que se divorciam, conseguem fazer isso tudo na perfeição? ".

A resposta é verdadeira e rima: não. Todos nós fazemos asneiras, mas temos a obrigação de pelo menos tentar fazer o melhor possível. Os nossos filhos têm de ser salvaguardados e jamais serem utilizados como armas de arremesso naquilo que é um pós divórcio que foi mal digerido por nós. Por falar em digestões, já vos dei mais do que suficiente para digerir. Até à próxima.

Subscreva a nossa newsletter e seja o primeiro a saber do que se fala por aqui.

Para que precisamos dos seus dados?

Os dados pessoais por si acima facultados serão tratados para envio da newsletter que subscreve. Se nos der o seu consentimento, iremos também usar a sua informação para envio de comunicações relativas a produtos e serviços da Fidelidade que poderão ser do seu interesse. Recordamos-lhe que tem o direito de retirar o seu consentimento a qualquer momento. Os seus dados nunca serão utilizados por terceiros ou entidades externas à Fidelidade.



Gostaria de ser informado acerca dos produtos e serviços da Fidelidade?

Conheça aqui a Politica de tratamento e Proteção de dados Pessoais