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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Doenças Crónicas
38% dos Portugueses acumulam duas doenças crónicas.
TRANSCRIÇÃO

Bom, hoje vamos falar de doenças crónicas. Eu acabo a frase e, de imediato, o professor de antropologia médica puxa-me as orelhas, porque no fundo nós não vamos falar de doenças crónicas, vamos falar de doentes crónicos. 

As doenças não existem, não são assim umas entidades que andam por aí pelas esquinas, nós vamos a passar e elas, pimba, cravam-nos as garras. E é porque existem doentes e não doenças, que não pode haver nem avaliações, nem tratamentos, nem abordagens - perdoem-me o plebeísmo - tipo "chapa 5". Se nós somos todos diferentes, também estamos doentes de modos diferentes. E, portanto, aquilo que os meu colegas - e muito bem - dizem, que é cada vez querem aproximar-se mais de uma medicina personalizada, faz todo o sentido. Voltemos atrás e, para simplificar, digamos doenças crónicas. Números: bem, o que tem vindo nos meios de comunicação, é que 38% dos portugueses acumulam, pelo menos, duas doenças crónicas. Escusado será dizer que, à medida que vamos envelhecendo, alguns de nós passam a ter maior probabilidade de ter doenças crónicas. 

Nesta classificação, digamos, que nós dispensaríamos, quem vai à frente? Dizem-nos que a hipertensão continua no topo. Há colegas meus, sabem como é que chamam à hipertensão? Um assassino silencioso. E faz sentido, porque a hipertensão o mais das vezes não dá sintomas nenhuns e, no entanto, está lá, a trabalhar para que nós tenhamos, sobretudo, problemas cardiovasculares. Nós temos a tecnologia, hoje em dia, para - se quisermos - estarmos em casa a medir a tensão arterial, de meia em meia hora. E isso também não é bom. Desde logo, porque quando nós investimos tanto nesse tipo de controlo, temos uma alta probabilidade de ficar stressados e da tensão arterial subir, mas, se não há sintomas, é evidentemente importante que nós façamos algum controlo, de vez em quando. 

Bom, depois, nós temos que nos defrontar com que tipo de problemas? Diabetes. Depois há um aspeto que a mim me faz torcer um bocadinho, que é o colesterol alto, aquilo que se chama a hipercolesterolemia. São sempre palavras difíceis de pronunciar. Porque é que eu me torço um bocadinho? Porque quando o colesterol alto é familiar, quando estamos em presença de uma questão genética, eu não tenho nada a opor a que o crismemos de uma doença, mas quando não é esse o caso, o colesterol é um fator de risco, como é a glicemia - o açúcar alto - como é a obesidade, como é o sedentarismo. E aí, chamar doença, eu já me torço um bocadinho, porque como compreendem, não é a mesma coisa ter o colesterol alto, fazer muito exercício e ter um açúcar normal, ou acumular os fatores de risco todos, não é? E alguns de nós acumulam-nos com grande desfaçatez, diga-se de passagem. 

Bom, as artroses - mais, nas mulheres - e, segundo o que podemos ler, há doenças crónicas, que são um grupo delas, que têm vindo autenticamente a florescer, as alergias. Isso daria uma conversa curiosa, porque colegas meus dizem que uma das razões tem a ver com o facto de nós educarmos cada vez mais as nossas crianças em - não direi - em redomas, mas cada vez mais protegidas daquilo que era o crescimento habitual há umas décadas e em que se desenvolviam defesas. Adiante. Quando eu ainda fiz medicina geral, em Matosinhos e em Gaia, muitas das pessoas que me procuravam, o que era um ato de coragem assinalável, diziam - suponhamos, as artroses - diziam: "Ó Sr. Dr., isto não mata, mas mói", "Ó Sr. Dr., isto só com..." - expressão muito curiosa - "... só com banhos de terra fria", ou seja, isto vai-me acompanhar até à morte. Para nós, os médicos, sobretudo os da minha geração, nós fomos educados muito mais para lutar contra as doenças agudas, do que com as crónicas. Porquê? Porque fomos educados para curar, enquanto nas crónicas, grande parte das vezes, nós sabemos que não vamos curar. Portanto, temos é de cuidar o melhor possível daquela pessoa e dos seus sintomas, dos seus achaques, como se dizia antigamente mas, mês após mês, ano após ano. 

E nem sempre os profissionais de saúde foram formados para isso e aquela sensação de "Não consigo resolver esta questão" pode tornar-se angustiante, mas não só para nós. Imaginem os familiares: isto pode alterar completamente a dinâmica familiar ou de um casal. Sei lá, de um ano para o outro, de uma década para a outra, num casal, um pode-se tornar alguém que tem que ser cuidado e o outro um cuidador. As dinâmicas nesta relação podem mudar. As inseguranças podem ser aos mais diversos níveis. Sei lá, alguém que era completamente autónomo, pode não achar graça nenhuma a precisar de ajuda para as mais diversas tarefas. A nível da relação erótica, eu oiço pessoas que me dizem assim: "Mas como é que o meu companheiro ou a minha companheira ainda se pode sentir atraído por mim, estando eu numa situação de grande dependência?". E são dúvidas perfeitamente legítimas. O Professor Sobrinho Simões diz-nos: "Habituem-se a cada vez mais considerarem o cancro como, com alta probabilidade, uma doença crónica". 

Cancro da mama: eu, no meu consultório, recebo casais em que houve um cancro da mama, as coisas resolveram-se, felizmente - e cada vez se resolvem com maior frequência, mas também cada vez há maior número de casos - e agora houve uma cirurgia reconstrutiva e aparece-me um casal que tem um problema na sua intimidade. E qual é o problema? Esta mulher não acredita que o seu companheiro continue a sentir-se eroticamente atraído por ela. E ele jura por todos os santinhos, se quiserem. O que é que se está a passar? É que como ela se sentiu atingida na sua imagem corporal, e como ela não acredita que seja a mesma, em termos eróticos, não consegue acreditar que ele esteja a falar verdade. Eu oiço uma frase que tem tanto de ternura, como de engano, que é dizer: "Ele está a mentir, sabe? Ele gosta muito de mim, e por isso mente para eu não me sentir preocupada". E não, ele está a falar verdade. Outro exemplo: a próstata. Cada vez mais, os meus colegas - sobretudo, os urologistas - conseguem resolver os problemas colocados pelo carcinoma da próstata, mas depois as próprias cirurgias - embora cada vez mais sejam uma última solução, mas quando elas acontecem - há efeitos colaterais muito desagradáveis, como a nível da ereção, como a nível da incontinência, e é preciso lidar com tudo isso. 

E, por último, numa esfera completamente diversa, deixar-vos-ia um outro exemplo. Pensem no alcoolismo. O álcool é a droga com consequências mais graves neste país e é legal. Bom, suponham isto: um dos membros do casal, durante anos, sofre de alcoolismo, é um alcoólico ou uma alcoólica. Quase inevitavelmente, o outro tem que assegurar muitas das responsabilidades e tarefas, neste casal. E agora - Hossana! - a pessoa resolve deixar. E esta pessoa, sobre muitos aspetos, renasce e, ao renascer, passa a ter, ou a querer ter, uma intervenção na vida deste casal que antes não tinha. E agora cria-se uma situação - isto é deformação do psiquiatra - uma situação fascinante, mas potencialmente muito perigosa que é alguém que tinha todo o peso da manutenção, do status quo e do navegar daquela família, em princípio passa a ter outra pessoa para ajudar, mas o que acontece é que agora quando esta pessoa dá as suas opiniões, por vezes não está de acordo e quem aguentou anos e anos o peso sobre as costas, de vez em quando pensa assim: "Mas onde é que ele e ela esteve durante 5, 10 ou 15 anos? E agora questiona as minhas opiniões? Sabe melhor do que eu o que devemos fazer por nós e..." - por exemplo, pela ganapada - "...pelos nossos filhos?". Isto até foi cruel da minha parte, porque deixa-vos isto pendurado, mas é para verem como até um acontecimento feliz, que é alguém libertar-se das garras da mais grave dependência deste país, pode ter efeitos que têm que ser cuidados na dinâmica do casal. Pode, portanto, um acontecimento feliz ter - pronto, vamos ser otimistas - pequenas consequências infelizes que têm que ser geridas, para que um casal que se aguentou durante anos, anos e anos de doença crónica, não venha depois - Ó surpresa e paradoxo dos paradoxos! - a separar-se, quando pensa que o pior já passou. 

Chegamos ao fim de uma maratona de alguns meses e não vos vou esconder que, por vezes, foi cansativo, mas sobretudo foi gratificante. Deu-me gozo fazer isto, porque a antropologia médica não passa disto: pensar a saúde, pensar nas pessoas e na melhor maneira de as ajudar. Quero agradecer à Multicare ter depositado confiança em mim - um velhote de 70 anos - anda para aí tanta gente muito mais na berra, no mundo audiovisual - portanto, foi agradável. Quero agradecer a todos os que trabalharam aqui e tiveram paciência para mim mas, sobretudo, quero agradecer aos resistentes que ainda estejam desse lado, depois de tanto, tanto tempo. E um último pormenor, que não é um pormenor, é um "pormaior", mas que poderia escapar a alguém da minha geração que é: eu vou-me embora, esta cadeira vai ficar vazia, mas os conteúdos de todos estes meses continuam à vossa disposição, imaginem onde? Eu já tenho dificuldade em dizer isto, mas é mesmo em "porfalarnisso.pt". Fiquem bem.

 

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