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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Envelhecimento 2
Na nossa sociedade a sexualidade está reservada aos mais novos.
TRANSCRIÇÃO

Eu prometi falar-vos de alguns escolhos a um envelhecimento saudável. E vou cumprir, mas no singular, porque achei que era importante falar de um deles em particular. O preconceito.

 

Vou-vos falar de um dos maiores entraves a um envelhecimento gratificante: o preconceito. Aquilo a que nós chamamos o Idadismo: o preconceito relacionado com a idade de alguém. Neste caso, dos mais velhos. Isto pode acontecer não apenas aos mais velhos. Sei lá, quando nós temos aquelas frases de “Ahh, os adolescentes são todos uns cabecinhas no vento e não são capazes de assumir responsabilidades, etc.” Isto é uma forma de Idadismo.

 

Sejamos perfeitamente honestos. Em geral, a palavra é utilizada em relação aos mais velhos. E dir-me-ão: ainda há assim tantos preconceitos para com os mais velhos? Por exemplo, a nossa mania de olharmos para os idosos como um grupo homogéneo, em que todos eles partilham as mesmas características. Porquê? Porque têm mais de 65 ou 70 anos de idade. Por exemplo, a questão da sexualidade em que os tornamos seres assexuados. Porquê? Porque na nossa sociedade, a sexualidade está reservada aos mais novos.

 

Somos avós e avôs, somos magníficos chauffers dos nossos netos, seja para as escolas, seja para as atividades extracurriculares, mas o pensamento de mais velhos a namorarem, de mão dada, a beijarem-se, etc., ainda continua a no mínimo surpreender, às vezes chocar, gente mais nova, numa sociedade que está completamente rendida à juventude.

 

Na realidade, tão rendida a juventude, que... Vocês sabem, no tempo da outra senhora, ser analfabeto era muito simples. Era não saber ler, nem escrever. Hoje em dia, eu deparo-me com formas mais subtis de analfabetismo, que é assim:

 

Os mais velhos não dominam o Excel, o Word, não sabem eventualmente manejar todas as aplicações dos seus telemóveis, etc., e isto, é outra forma de segregação. De tal modo, que pode ter consequências a nível das próprias situações laborais.  E porque falei – agora deu-me vontade de dizer “e por falar nisso” – e porque falei de situações laborais, como vivemos numa sociedade que privilegia a aparência, é muito vulgar que os mais velhos se venham queixar – sabem de quê? De que, por exemplo, tendo trabalhos em que estão em contacto com o público, de um momento para o outro, alguém os chamou e de uma forma mansa, mas definitiva, lhes anunciou que vão passar para outras secções em que não estão em contacto com o público. Porquê? Porque a empresa, a instituição, a repartição precisa de ter uma imagem mais jovem. E daí que, de vez em quando, os mais velhos estejam ou a pintar o cabelo ou a fazer uma operação plástica, não só porque eventualmente lhes possa apetecer, mas também para tentarem manter-se, digamos assim, com uma aparência mais jovem.

 

E isto é muito complicado. Porque uma coisa é envelhecermos bem, outra coisa é fingirmos que não estamos a envelhecer. De tal maneira, eu vou citar de cor, vou-me arriscar - ainda por cima, grande parte de vocês sabe que Eugénio de Andrade é o meu poeta preferido - um poema dele chamado “Sobre a Sombra”. Há uma frase que, salvo erro, reza assim: “Quanto tempo será possível amá-los a esses jovens, sem os ofender?” A frase é bela, mas é terrível. Porque significa que nós já não precisamos que o preconceito venha de fora, ele já está dentro de nós. E somos nós que nos questionamos a nós próprios. É como ser perseguido pela polícia e um dia - a polícia de choque, não estou a falar de ladrões, por uma ideia política - e um dia a polícia já não vem atrás de nós e não precisa. Temos polícias dentro que fazem o trabalho que eles faziam.

 

Pensem nisso, porque é importante. Por falar nisso.

Até à próxima. Fiquem bem.

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