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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #COVID-19
  • #crianças
Impacto da Covid-19 nas crianças
É fundamental criar rotinas nas crianças.
TRANSCRIÇÃO

A covid-19 tomou conta das nossas vidas e das nossas emoções. Veio de repente, fez mudanças bruscas e intensas na nossa vida e está para ficar.

 

A questão que se coloca cada vez mais é qual é o impacto da covid-19 na vida das nossas crianças. Afinal de contas, as crianças são um dos elos mais vulneráveis da sociedade.

 

E, hoje em dia, muito embora o tempo de doença seja curto, um ano, basicamente, é o tempo desde o início da pandemia na China até à atualidade, um ano é curto para a Ciência, no sentido de se poderem tirar conclusões e de se poderem tirar algum tipo de ilações.

O certo é que já vai havendo alguns trabalhos que mostram dois aspetos importantes. Há, antes de mais, um impacto imediato, direto, da doença na saúde da criança, na dependência de infeção.

 

E depois haverá, necessariamente, um impacto indireto, consequente à mudança do estilo de vida a que a criança é sujeita, e esse impacto indireto tem muito mais a ver não com o aspeto físico, mas com o aspeto da afetividade, da emoção, do desenvolvimento cognitivo, e, inclusive, da sua estabilidade emocional e do seu crescimento físico e somático.

 

Falando do primeiro, e acho que é importante esclarecer. Sabe-se, hoje em dia, pelos trabalhos que há publicados, que o impacto, em termos da doença, na idade pediátrica é um impacto relativamente benigno. A criança raramente fica doente, quando tem sintomas, os sintomas são benignos, e, quando há sintomatologia grave, geralmente acontece excecionalmente e em crianças com alguma patologia. Falou-se aqui há tempos, e é importante que isto fique claro, da associação entre a covid-19 e o Síndrome de Kawasaki, dando uma importância muito grande a este síndrome, pela sua gravidade.

 

É importante ter a noção de que o Síndrome de Kawasaki tem muitas causas, geralmente víricas, provocadas por outro vírus, de modo que não é um apanágio da covid-19, é algo que acontece

 

em outras circunstâncias e relativamente ao qual os profissionais de saúde estão sensibilizados, estão atentos, sabem fazer um diagnóstico e sabem orientar atempadamente o que significa, que não deve constituir problema nem preocupação este aspeto específico. Estas são as consequências físicas diretas da covid-19 em termos de doença na saúde da criança. Mas depois há as tais consequências indiretas, e estas, como referi, têm mais a ver com aspetos comportamentais, emocionais, cognitivos. Referi há pouco que o tempo de doença é curto, no sentido de podermos tirar grandes ilações, mas já vai havendo trabalhos. Por exemplo, na província de Xianxim, na China, um grupo de pediatras publicou em fevereiro um trabalho muito interessante relativamente ao que se passou com 320 crianças e adolescentes entre os 3 e os 18 anos. E o que estes pediatras constataram é que estas crianças que tinham acabado de sair do tempo de confinamento na China apresentavam uma prevalência

 

considerável de irritabilidade, de medo, de perturbações de sono, de perda do seu autocontrolo, de perda da capacidade de atenção, de mais dependência, mais ligação, aos seus cuidadores. Outros trabalhos mostram, para além disto, que há realmente impacto no que diz respeito ao autocontrolo, ao padrão de sono, ao padrão de alimentação, mas também alguns sintomas físicos que não são habituais na criança, como, por exemplo, frequentemente queixar-se de dores de barriga, queixar-se de dor torácica, queixar-se de dores de cabeça sem haver uma causa orgânica.

 

E nos adolescentes, é frequente acontecer ansiedade, acontecer medos, acontecer pânico e acontecer depressão. Tudo isto vai sendo descrito e vai sendo registado, por uma razão: a criança,

 

particularmente a criança mais pequena, é uma esponja de emoções. A criança capta aquilo que está ao seu redor, filtra, e depois tenta reagir, e tenta reagir sobrevivendo no meio que conhecia previamente. Mas o que acontece é que o meio onde ela está inserida, a família, também vive emoções e um ambiente que não são dos mais saudáveis. Há mais stress, há mais ansiedade, há mais angústia em relação ao futuro, por vezes, há problemas económicos. E a criança, ao filtrar todo este padrão de comportamentos diferente daquele a que ela estava habituada, fica desconcertada e com uma certa incapacidade, tendo em conta a sua imaturidade, de reagir de uma forma equilibrada. Então, a forma que ela tem de reagir é precisamente através de alguns sintomas emocionais - a irritabilidade, a desatenção, o medo - de alguma perda de controlo, ligando-se mais fortemente aos seus cuidadores com receio de os perder, e manifestando alguns sintomas físicos como os que eu referi, nomeadamente as dores de barriga, as dores de cabeça e a dor torácica. Tendo em conta o que se sabe hoje, e, como eu referi, há muito ainda para aprender, e sabendo que todos estes sintomas

 

e as consequências da covid-19 na saúde da criança dependerão necessariamente do tempo em que durará esta alteração do estilo de vida, sobretudo dependente de um aspeto muito importante, que é a quebra das ligações de proximidade, vá lá, na direta dependência do isolamento social, o que nós devemos perceber é o que é que devemos fazer. E os cuidadores devem, antes de mais, estar atentos, estar atentos à mudança de comportamento da criança, às queixas específicas das crianças. Devem ter a preocupação de que é importante manifestar afeto, porque o afeto é que dá tranquilidade e confiança à criança. Devem falar. Devem falar abertamente, ao nível do conhecimento da criança, mas não ter receio de explicar aquilo que for possível de ser explicado. Devem brincar, guardar um tempo para, mesmo no ambiente mais desestruturado da família ou de maior ansiedade, ser capaz de brincar com a criança. E, finalmente, devem ter uma atitude fundamental que é criar rotinas.

 

As rotinas reduzem o stress, permitem à criança autocontrolar-se, dão-lhe uma motivação e permitem que ela vá criando ferramentas para ser capaz de se inserir no seu novo ambiente, no seu novo paradigma de vida. E a escola deve trabalhar em colaboração com a família, tendo a noção de que é importante que a criança se sinta bem no seu ambiente, que perceba as limitações e a estruturação do seu novo ambiente, porque a criança tem uma capacidade brutal para se adaptar, tem uma resiliência enorme, e desde que ela tenha afeto, desde que se sinta confortável, desde que se sinta segura e seja capaz de se autocontrolar, tendo as suas rotinas e as suas regras, ela rapidamente se adapta às novas situações. É um desafio, é um desafio que nos cabe a todos nós, mas, sem dúvida alguma, é um desafio que nos vai, necessariamente, poder construir crianças talvez mais saudáveis, mas sobretudo termos a noção que há que minimizar o efeito secundário, em termos comportamentais, desta pandemia, porque, sem dúvida, o efeito será duradouro e poderá ter algum impacto na vida futura da criança, quando houver uma situação de stress tóxico.

 

Quando é que acontece o stress tóxico? Quando a criança sofre sem ser capaz de lidar com os seus novos sentimentos, desamparada do apoio do adulto, o que leva, mais uma vez, a chamar a atenção para a importância do adulto estar atento e ser capaz de acompanhar e apoiar a criança. É uma função, é uma tarefa, é uma responsabilidade de todos nós.

 

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