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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #tecnologia
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Impacto da tecnologia na nossa sociedade
Estamos a pensar de uma forma mais superficial.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Vamos falar de tecnologia.

E se calhar devíamos falar por faixas etárias, não é? Não é a mesma coisa, alguém como eu que anda sistematicamente a tropeçar nos avanços tecnológicos ou os mafarricos dos meus netos que nasceram neste banho de avanço tecnológico e nadam nesse oceano com a maior das facilidades.

E calhou bem eu dizer de avanço tecnológico, porque a tecnologia não nasceu agora, não brotou no Entroncamento na semana passada. Sei lá, há artigos escritos com as opiniões de escritores, até no principio do séc. XX, em que eles se manifestavam espantados com a diferença no seu tipo de escrita, o seu estilo de escrita por causa de terem passado a escrever em máquinas, a dactilografar. E isso era um avanço tecnológico. Agora, eu acho que é consensual que nos últimos para aí 20 anos o salto foi brutal. E, diga-se de passagem, que há colegas meus que dizem que esse é um dos problemas, o salto foi de tal maneira rápido que nós não estávamos preparados para acompanhar.

Agora, em termos de o que é que acontece com esse avanço tecnológico e de que maneira influi nas nossas vidas.

Vamos ver, é uma hipocrisia terrível começarmos com aquele discurso de “ai a tecnologia só tem desvantagens, desumanizou todo este mundo”, vejam a minha profissão, nem digo a minha especialidade, sendo eu Psiquiatra, mas na Medicina, ou seja naquilo que é a perseguição da saúde global os avanços foram brutais, a nível do diagnóstico, a nível do tratamento, a nível do tratamento de dados que é importantíssimo, não é?

Não tem isto outra face da moeda? Tem. Eu oiço muitas pessoas e colegas meus a queixarem-se: “ah, mas quando nós estamos a funcionar – naquilo que é a relação de ajuda de um profissional de saúde com alguém que foi pedir auxilio – eu agora sou obrigado a estar sistematicamente a olhar para um ecrã.” – e do outro lado alguém diz “o meu Médico de família olha mais para o computador do que olha para mim” – isto não é bom, em termos da confiança da relação e isto não é bom naquilo que tem verdadeiramente o estatuto, não tenho receio de dizer isto, o estatuto de núcleo da Medicina, as opiniões são variadas, eu tenho colegas meus a escrever artigos dizendo que daqui a 10 ou 20 anos os Médicos humanos, é muito curioso dizer isto, os Médicos humanos serão muito menos eficazes do que os “Médicos da Inteligência Artificial” eu não partilho esta ideia porque há qualquer coisa que a Inteligência Artificial nunca poderá ter, é um passado, nós podemos injetar num programa qualquer, recordações, o que não podemos injetar é o ter vivido essas recordações e isso conta quando nós falamos com alguém que está à nossa frente.

Agora, em termos globais quando falamos de tecnologia estamos sempre a falar de comunicação e por um lado também temos que admitir custosamente que nunca tivemos tanta capacidade de estarmos informados como hoje, isso é bom.

Às vezes alguns desvios são até divertidos, de vez em quando eu descubro que os meus netos sabem mais de algo que se passou nos Estados Unidos do que em Ermesinde, no mesmo dia. Porque como é evidente os meios de comunicação cobrem de um modo diverso aquilo que consideram que dá mais audiências.

Agora, e já que falei nos meus netos, quando eu digo que isto é uma enorme vantagem. É! Uma pessoa, um sujeito com “S” grande, mais bem informado é alguém que está mais capacitado a tomar decisões, agora não podemos negar que há riscos e neste momento há questões problemáticas.

Por exemplo a dependência tecnológica. Vejam, na pandemia, nós tivemos e se calhar estamos a ter, mas falemos da Primavera, nós tivemos um período de confinamento em que nos faltaram os abraços e os beijos dos nosso entes-queridos, mas em que tivemos a possibilidade de fazer coisas que há 20 anos não teríamos, que é ter no nosso computador às vezes até em mosaico, salvo-erro diz-se assim, a família toda e pronto, quem não tem cão caça com gato. Nós víamo-nos, nós riamos, nós conversávamos, nós mantínhamos um contacto social, bom.

Mas nós psiquiatras neste momento, temos que tratar pessoas, não são só os jovens, que se tornaram dependentes, não foi só com a pandemia, houve casos em que a pandemia reforçou isso, se tornaram completamente dependentes desse mundo virtual.

E ao tornarem-se dependentes desse mundo virtual, ele acabou por se tornar de certa forma mais real do que o da rua de carne e osso, com sol e chuva.

E aqui sim, sobretudo nos mais novos, isto significa dificuldades em aprender competências sociais que são indispensáveis a relações tão simples como convidar alguém para tomar um café, para ir a um cinema, para jantar fora, aprofundar um namorico, etc. É tudo mais fácil no mundo virtual pela sensação de omnipotência que dá.

Por último, há uma velha frase que é preciso desmistificar, que é, já falamos das vantagens e de desvantagens da tecnologia, longe de mim, nunca o fiz, diabolizá-la.

Pelo contrário, digo sempre é preciso espremer até ao tutano tudo o que nos pode dar. Mas há uma velha frase que já tem direito de cidade que é assim: “a tecnologia é neutra, depende do que fazemos dela, se a utilizamos bem, ou mal”, não é assim tão simples, nós hoje sabemos que a tecnologia tem vindo a transformar a nossa forma de pensar, nós estamos a pensar de uma forma mais entrecortada, mais superficial, estamos a ter mais dificuldade em aprofundar os temas porque a tecnologia tem essa capacidade de nos por a viver e a pensar à superfície das coisas, à superfície dos afetos e isso é preciso ter cuidado.

Porque aquilo que verdadeiramente nos define, não está aqui na epiderme, está dentro e aquilo que define verdadeiramente as relações também não vem do simples raspar de epidermes ou de teclados, também vem de dentro.

Quem avisa vosso amigo é.

Até à próxima.

 

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