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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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O Comportamento dos Idosos
Talvez a melhor maneira seja explicar-lhes a extraordinária importância que eles ainda têm.
TRANSCRIÇÃO

Eu prometi-lhes que, pela mão do meu colega Pedro Morgado, iriamos desaguar nesses terríveis idosos que têm dado algumas preocupações - mais do que legítimas - por aquilo que de vez em quando tem sido apelidado, a sua teimosia, a sua resistência ao que são as diretrizes indispensáveis. 

E, já que estávamos em Braga, vamos descer até ao Porto. E vamos descer até ao Porto e aproveitar uma entrevista que o Professor Henrique de Barros deu, em que há uma comparação - e foi isso que me chamou a atenção - há uma comparação entre aquilo que é sentido pelos mais jovens e pelos mais velhos. E, aparentemente, parece haver uma contradição nos resultados. Pronto - dir-me-ão - daqui a um mês ou dois, os resultados serão resultados mais consistentes, mais fiáveis, por uma questão de volume de dados. Não estou a dizer que não. Mas para um psiquiatra, aquilo que já foi encontrado não é nada de surpreendente. Porque, o que é que se diz? Diz-se: os mais velhos - os idosos – os mais velhos têm menos medo do que os mais novos. Bom, mas o vírus é muito mais perigoso - isso é uma das poucas coisas que nós temos a certeza absoluta neste momento, basta ver, com tristeza, a percentagem de óbitos por faixa etária - o vírus é muito mais perigoso para os mais velhos. 

Então, isto o que é que significa? É pura e simples inconsciência? E porque é que os mais novos estão com mais medo quando veem os mapas da mortalidade? Eu não vou dizer - até porque sou suspeito, sendo eu oficialmente um velho, com os meus 70 anos. Eu não vou dizer que não haja mais velhos que são completos inconscientes. O que vou dizer é que, um erro habitual em nós é falarmos dos mais velhos como um grupo homogéneo, quando cada um deles tem uma vida já longa atrás. E que, portanto, faz com que seja, sob muitos aspetos, muito mais único em termos de comparação, do que - sei lá - as crianças. 

Vejam, nós ouvimos gente mais velha a dizer: “Ah, mas eu já passei por isto, por aquilo” - questões de saúde também, diga-se de passagem, outras pandemias, etc.  “Pronto, já passei por isso tudo.” O que dá uma certa sensação de invulnerabilidade - “Já nada me acontece.” - que é perigosíssima, em termos de contágio e depois as suas consequências. Mas depois temos outros velhos que nos dão um feedback -perdoem-me a utilização da palavra estrangeira - mas dão-nos um feedback que é diverso que é: “Bem, mas eu já vivi a minha vida e para mim os meus rituais - e os rituais podem ser o café, o jornal, a saída, o dominó com os amigos, etc -  são muito importantes. Sem isso eu não me sinto vivo.”. E então, isso faz com que eles arrisquem mais. 

E agora, se pensarmos um bocadinho nos mais novos - e não estamos, sobretudo, a falar de, como é evidente, crianças e adolescentes - mas estamos aqui nos mais novos: adultos jovens e gente que está - falaremos dela - na chamada geração sandwich, 40/50 anos. Esta ansiedade ou - se quiserem - esta maior ansiedade não é justificada? É. Porque a ansiedade deles - e essa já não é pouca - não para no vírus. A ansiedade deles está sobretudo virada para o futuro. O que é que aí vem? - Pronto, vamos esperar que tudo corre bem e que se vence o vírus, vem aí uma vacina, etc. E depois? - E o meu local de trabalho? A minha empresa? O meu pequeno negócio? Como é que tudo isso vai resistir?  Este tipo de ansiedade, muitas vezes para os mais velhos, não existe. As coisas estão mais ou menos jogadas, o espaço temporal é muito mais curto e, portanto, isto tem lógica. Depois, o Professor Henrique de Barros salienta algo que é muito importante. Por favor, eu sei que não é por má vontade, mas eu quando leio aqueles artigos a dizer que o vírus é democrático e que ataca todos da mesma maneira, todas as classes sociais da mesma maneira, eu fico sempre dorido, sabem? Porque não é verdade. O Professor Henrique de Barros, diz: Há um gradiente social. O que é que isso quer dizer? Quer dizer que, como de costume, os que são mais pobres, os que têm menos educação, os que vivem em condições mais desfavorecidas, pagam sempre um preço mais elevado.

Não podemos ignorar isso. Isto não é culpa do vírus, é culpa da própria sociedade que faz com que algumas das suas camadas estejam mais desprotegidas. E, voltando aos mais velhos: claro que vocês - ia dizer “nós” (riso) - claro que vocês têm a obrigação de fazer pressão para que eles cumpram as diretrizes. Mas cuidado! A melhor maneira não é infantilizá-los. Não é tratá-los como crianças, não é ralhar-lhes, etc. Talvez a melhor maneira seja explicar-lhes que, às vezes, se pode compreender que eles tenham uma certa descontração, digamos assim, do alto da sua vida já vivida, mas que continuam a ser extraordinariamente importantes. E sabe Deus, que esta sociedade não é muito talentosa a mostrar aos mais velhos que ainda são importantes. Mas deixemos isso para outro episódio. É salientar a extraordinária importância que eles ainda têm. Ou seja, eles podem estar relativamente descontraídos quanto aos riscos que correm, quando pensam apenas em si. Mas têm obrigação de pensar naqueles que já não estão à sua responsabilidade - muitas vezes é até ao contrário - mas que os amam. E que, mais não seja por causa disso, têm a obrigação de, na medida do possível - ninguém é perfeito - cumprir as diretrizes que vêm de cima - neste caso, não do alto mas dos profissionais de saúde. 

Sabem, um dos meus poemas favoritos de Amália Bautista, sobre as coisas que verdadeiramente são importantes, acaba dizendo, no fundo - estou a citar de cor: O importante, o que verdadeiramente fica, é podermos amar, ser amados e não morrer depois dos nossos filhos. Ora bem, é preciso salientar aos mais velhos que eles são amados e que o amor deles continua a ser necessário. E que para proteger essa dimensão afetiva dos mais novos, não é pedir-lhes muito que tenham um bocadinho mais de juízo, de vez em quando - aqueles que demonstraram não ter o necessário. Como de costume: cuidem-se.

 

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