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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #tecnologia
  • #crianças
O equilíbrio no uso da tecnologia na vida das crianças
Não se deve dizer que o digital faz mal às crianças.
TRANSCRIÇÃO

Vivemos no mundo da tecnologia, não há como ignorá-lo, está à nossa volta, constitui a nossa rotina do dia a dia. A revolução tecnológica, e particularmente a revolução digital, não pode, de forma alguma, ser considerada como má nem como prejudicial à nossa vida e ao desenvolvimento da criança. Ela tem que ser entendida, tem que ser otimizada e, sobretudo, tem que ser aproveitada a nosso favor.

A evolução tecnológica terá começado algures há 50 anos com o aparecimento da televisão. E é importante termos a noção de que há vários conceitos de tecnologia. Há nomeadamente a tecnologia ligada aos ecrãs. Há a televisão, há o DVD, há os videojogos, há os telemóveis, há a Internet, e é lógico que uma não é igual a qualquer uma das outras, e é preciso fazer esta destrinça quando se fala em tecnologia.

É redutor dizer, à partida, que a tecnologia só por si faz mal ao desenvolvimento da criança. Não pode ser entendido desta forma.

O que é importante é nós termos a noção, como em tudo na vida, a utilização da tecnologia depende de qual, de quando, de como e em que quantidade. E porquê? Falamos só da criança, sabendo à partida que o adulto deve ser o exemplo, deve ser a figura a seguir, mas a criança tem uma particularidade. A criança está a crescer, a maturar e a desenvolver-se, e o cérebro é um dos órgãos mais cruciais no que diz respeito à capacidade cognitiva e ao comportamento emocional e afetivo da criança.

E por incrível que pareça, nós nascemos com o maior número de neurónios que alguma vez vamos ter na vida, porque efetivamente depois vamos perdendo os nossos neurónios ao longo do nosso crescimento. Mas o que é que se passa?

O que vai acontecendo com o crescimento e com a maturação é a criação de ligações entre estes neurónios, de redes, de verdadeiras autoestradas, cujo nome técnico são as sinapses.

E quanto maior a quantidade de redes, de conexões que se vão formando entre estes neurónios, maior é a capacidade cognitiva da criança, maior é a sua resiliência e a sua capacidade de controle emocional. Porquê? Porque o desenvolvimento destas autoestradas e destas redes entre os diferentes neurónios, depende de estímulos externos, depende do ambiente em que a criança vive, depende da forma como a criança é ensinada a sociabilizar e a lidar com o conhecimento e com as emoções desde os primeiros dias de vida. E o cérebro, que vai aumentando o seu volume na dependência destas ligações, destas autoestradas, atinge cerca dos 3 anos de idade 60 porcento do peso total e, aos 6 anos, o cérebro de uma criança pesa 80 porcento do peso total correspondente ao peso do cérebro do adulto. E este aumento de peso, como já concluíram, não depende do aumento do número de neurónios, mas depende, sim, do aumento destas autoestradas e destas conexões, destas sinapses, que, volto a referir, dependem, para o seu desenvolvimento, da estimulação externa, dos comportamentos que a criança aprende a desenvolver no seu processo de crescimento e da maturação. Ora, daqui é fácil perceber que não se deve dizer, à partida, que o digital faz mal à criança, que o digital compromete o desenvolvimento da criança.

Houve um trabalho recentemente publicado por um neurocientista francês que mostrou um aspeto muito interessante. Antes de falar do trabalho, importa termos a seguinte noção. Eu consigo avaliar o quociente intelectual de uma criança através de métricas muito bem definidas que classificam o conhecido Q.I. Essas métricas não são estáticas, têm sido modificadas ao longo dos últimos anos, são dinâmicas, e a modificação destas métricas tem a ver com a modificação das características da sociedade onde nós vivemos. Ora, há um efeito que se chama o Efeito de Flynn, que diz que, nos últimos 50 anos, de geração para geração, há um aumento do quociente de inteligência e isto tem dependido, provavelmente, ou com certeza, do aumento da estimulação a que têm sido sujeitas as gerações. Ora, este neurocientista francês neste artigo recentemente publicado mostra que, pela primeira vez, ao longo dos últimos 50 anos, na geração atual, digital, não ocorreu este Efeito de Flynn. Ou seja, não houve um incremento do quociente intelectual. E uma das questões que se apontam para que isto tenha acontecido é fundamentalmente uma má utilização do digital, não em proveito da criança e do adolescente, mas apenas com o objetivo de entretenimento e de sossego.

Tendo em conta o que eu referi, importa termos a noção, perante este conhecimento, de como é que deveremos usar então a tecnologia, porque vivendo nós num mundo tecnológico e digital não o podemos ignorar, teremos é que saber manipulá-lo ao nosso proveito. E há quatro conceitos importantes.

Primeiro, é preciso ter em atenção qual o tipo de ferramenta, de material utilizado, nomeadamente no ecrã. E é certo que qualquer material puramente de entretenimento não tem interesse, é contraindicado, não desenvolve intelectualmente a criança, perturba a sua capacidade de desenvolver a atenção e a concentração e pode interferir inclusive com o sono, o que significa que não é recomendado, de todo, que as crianças consumam conteúdos apenas com o objetivo de entretenimento, de passar o tempo, do género de: eu preciso, eu, pai, ou mãe, preciso de fazer isso, deixa-me mantê-la quieta, entretida com aquilo. Os conteúdos têm necessariamente ou devem ter uma vertente educativa, formativa e construtiva, e não serem puramente entretenimento. Este é o primeiro aspeto.

O segundo aspeto tem a ver com a idade. Sabe-se, hoje em dia, que não há interesse rigorosamente nenhum até aos 2 anos, de sujeitar uma criança à utilização de ecrãs. Há inconvenientes. Há inconvenientes físicos, nomeadamente na própria maturação da visão, comprometendo o seu desenvolvimento saudável, mas também há compromissos em termos de desenvolvimento afetivo e cognitivo. Porque a criança até aos 2 anos está numa fase crucial de moldar a sociabilização, e, para a moldar, ela tem que interagir, tem que ver, tem que falar, tem que comunicar com os seus pares num ambiente normal da sua vivência.

Ora, o ecrã não ensina a falar como os seus progenitores falam. A voz do ecrã não é uma voz que lhe permita uma interação entre indivíduos, é uma voz impessoal.

Por outro lado, não estimula nem desenvolve a ligação entre os seus pares e não ensina a viver em grupo e em sociedade. Portanto, até aos 2 anos, não é propriamente aconselhável a utilização de ecrãs. Dos 2 aos 6, o ecrã pode ser utilizado o mínimo de tempo possível com duas condições. Conteúdos educativos e sempre com supervisão e preferencialmente apoio concomitante do progenitor. O progenitor deve partilhar com o seu filho, com a sua criança, a utilização daqueles conteúdos, ensinando-o a aprender através da utilização nomeadamente do ecrã. A partir dos 6 anos, assume-se que entre 30 minutos a uma hora ocasionalmente por dia não haverá inconveniente da utilização de ecrã, de novo respeitando as duas premissas anteriores. Conteúdos educativos e preferencialmente com supervisão dos progenitores. O terceiro aspeto importante é a quantidade. Uma coisa é consumir pontualmente, outra coisa é consumir regularmente. E o que se sabe, hoje em dia, por exemplo, se eu quiser comparar a tecnologia à música, se eu oiço uma música, a música desperta em mim, naquele momento, sentimentos, afetos, sensações, agradáveis ou não, mas eu deixo de ouvir a música e eles desaparecem. Com a tecnologia, e nomeadamente com o ecrã, é a mesma coisa. Se eu uso pontualmente o ecrã, ele pode desencadear algum tipo de reação. Se ele desaparece, a reação também desaparece.

Agora, quando o consumo é sustentado e é regular, então aí, o efeito em termos de alteração funcional e alteração morfológica do cérebro podem levar a que haja compromisso do desenvolvimento e da capacidade cognitiva do indivíduo. Podemos ainda dentro deste conceito comparar a tecnologia a um alimento. Se eu uso, ou melhor, se eu consumo pontualmente um alimento menos saudável, não tem problema nenhum, é algo pontual. Mas se eu regularmente na minha alimentação consumo alimentos menos saudáveis, eu necessariamente posso ter reflexos na minha saúde. O mesmo se passa com a tecnologia. O consumo pontual não tem repercussões significativas, o consumo sustentado e desregrado poderá ter repercussões significativas. E depois, o quarto item tem a ver com a ocasião. É importante que não haja consumo de ecrãs de manhã ao acordar. É fundamental que não haja consumo de ecrãs à noite, depois do jantar, muito menos antes de ir para a cama. Um exemplo muito rápido. Foi feito um teste com crianças escolares a quem foi dada uma lista de palavras para elas memorizarem antes de irem para a cama. E depois dividiram-se essas crianças em dois grupos. A um grupo foi permitido que brincasse a um jogo de consola, de entretenimento, e ao outro grupo não foi permitida esta tarefa. No dia seguinte de manhã, o grupo que usou o entretenimento com a consola apenas fixou ou memorizou 50 porcento das palavras da véspera, enquanto que o grupo que se foi deitar, que foi dormir e que não teve a distração da consola antes de ir para a cama, memorizou 80 porcento das palavras que lhe foram apresentadas na noite anterior. Portanto, de manhã, não. À noite, não. No social, não. Quando a família está a sociabilizar, quando se está a brincar com os amigos, o ecrã não deve ser permitido, o que deve ser é estimulada a criança no sentido de aprender a integrar-se no seu grupo de pares, a partilhar as experiências da sua família e as experiências dos seus amigos. Lembro que os adultos devem ser o exemplo e lembro que os adultos devem, sem dúvida, permitir que a criança utilize as vantagens da tecnologia, sabendo doseá-la, sabendo utilizá-la em seu proveito com o objetivo de melhorar as suas competências, de melhorar a sua capacidade e de permitir que não seja um simples utilizador imediato, mas sim ajudar a construir uma personalidade e um indivíduo muito mais completo e muito mais bem formado.

 

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