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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #quarentena
  • #teletrabalho
O Teletrabalho
É preciso que haja regras para mantermos a liberdade.
TRANSCRIÇÃO

Hoje vamos falar de teletrabalho. Primeira nota e primeira lapalissada do dia, o teletrabalho não foi inventado durante a pandemia, isto até rima, mas juro que não foi de propósito.

Pelo contrário, a análise das vantagens e desvantagens do teletrabalho ocupa a ciência à muitos anos. E porquê? Porque, à priori o que é que se esperava do teletrabalho? E obteve-se, não estou a dizer que não. Só vantagens e isso é que hoje em dia nós somos mais parcimoniosos. Porque o teletrabalho permite uma maior flexibilização do trabalho, permite uma maior autonomia da pessoa que o executa, permite um maior contacto familiar, olhem o teletrabalho ainda hoje é muitas vezes apresentado como uma das estratégias de flexibilização de trabalho que podem permitir um acompanhamento maior do crescimento das nossas crianças.

E assim, ser uma das variáveis que se podem manejar para combater a crise na natalidade com que nos debatemos. É muito curioso que nalguns dos primeiros trabalhos sobre teletrabalho, que raio de construção de frase, mas enfim, um dos problemas que surgia sabem qual era? Era com os homens mais velhos, os homens mais velhos eram perfeitamente capazes de funcionar em teletrabalho sem problema nenhum prático e no entanto não se sentiam à vontade, referiam mal-estar e quando se foi averiguar isso, qual era a razão? Nós, porque isso é a minha geração, nós fomos formatados para um determinado tipo de trabalho e sobretudo para um determinado tipo de organização familiar, ou seja, em que o homem o mais das vezes era o ganha-pão da família. Saía de manhã para trabalhar e entrava à noite, com um bocado de azar ainda entrava à noite, para no caso de casamentos heterossexuais, para a mulher dizer que a ganapada se tinha portado mal e ele ainda tinha que ir impor disciplina e estes homens diziam que o facto de estarem a trabalhar em casa,  que lhes despertava uma certa angústia porque eles não sentiam aquilo como verdadeiro trabalho porque estavam em casa. Bom, felizmente esse tipo de coisas mudou muito, sei lá, eu conheço um amigo dos meus filhos que à custa do teletrabalho corre o mundo inteiro, está 3 meses num país, 3 meses noutro, o trabalho faz-se, ele adora viajar e é um verdadeiro cidadão do mundo.

Hoje, a análise do teletrabalho é mais complicada porque para além de haver as vantagens que vos referi, para além de haver vantagens também a outros níveis, por exemplo redução de custos, aumentos de produtividade, nós também descobrimos que há outra face da moeda, há sempre outra face da moeda. Coisa que eu ouço mais aqui e agora, estou-vos a falar, agora. Há pessoas que agora chegam aqui e dizem assim - Hum, com esta coisa do teletrabalho, já informei os meus sócios na cidade tal, que metade das viagens que eles fazem para aqui para o Porto e que eu faço para lá, vão deixar de existir. Vamos passar a fazer a reunião por teletrabalho. - é uma vantagem, em contrapartida, sobretudo mulheres, eu tenho ouvido aqui muitas já a dizerem - Mas estou exausta e pior do que isso, tenho a sensação de não estar a ser eficaz em nada, porque estou em teletrabalho, tenho a criançada em telescola, tenho a casa e não consigo deitar mãos a tudo. - e é compreensível. 

E isto radica, não estou a dizer exclusivamente, mas radica em aspetos importantes. Há um triângulo no teletrabalho que tanto pode ser, perdoem-me a comparação um pouco desrespeitosa, não, mas enfim, tanto podem ser uma espécie de santíssima trindade, tudo corre muito bem, como podem ser o triângulo das Bermudas. Em geral é importante 3 coisas, a relação que se mantém com as chefias, a relação que se mantém com os nossos pares, que estão também em teletrabalho e outros podem não estar, podem estar em trabalho presencial e a influência sobre a família, ou seja a relação  que se estabelece entre trabalho e família. Se tudo corre bem nestas 3 áreas, em princípio é céu azul e eu permitia-me, porque me interessa mais, sair da parte exclusivamente laboral e ir para a questão familiar que é, o que as pessoas me dizem com frequência é que as fronteiras praticamente desaparecem. E isto é muito complicado porque alguém estava habituado a ter um trabalho que cumpria escrupulosamente, mas depois, ia para casa, mas depois era fim de semana e agora vem-me dizer que às vezes está em 3 conferências por tecnologia ao mesmo tempo, que alguém pediu qualquer coisa às 20:30 à hora do jantar e as fronteiras esbatem-se e como nós vivemos num mundo , não são só os adolescentes, como nós vivemos num mundo em que é suposto, estarmos sempre contactáveis, as pessoas dizem - É um inferno.

Uma hora antes de filmar isto, um amigo meu telefonou-me e disse - Estou a dar em doido, há gente a mandar-me mails com perguntas perfeitamente legítimas, o problema é que são 2:30 da manhã. - e isto é algo de fundamental, que é, é preciso manter fronteiras, é preciso preservar o nosso espaço individual, a nossa saúde física, eu sou psiquiatra e já tenho dito aqui a pessoas - Mas desculpe essas horas todas em frente ao computador? Tem que se levantar e dar uma volta pela casa, ou na rua ou qualquer coisa, isso é impossível. - é preciso portanto que haja regras, para que mantenhamos liberdade e sabem, quando eu fiz uma hora em direto no Facebook da Multicare, uma senhora colocou lá um comentário que me pôs a pensar, porque eu não tinha sublinhado como devia esse ponto, ela dizia - Ó Senhor Doutor estou de acordo com tudo o que foi referido, mas antes de tudo o resto é preciso autodisciplina, nós temos de ser capazes de organizar a nossa vida. - é verdade, porque a alternativa sabem qual é? Lembram-se do Tempos Modernos do Charlie Chaplin? Em que ele trabalhava na fábrica e apertava porcas e depois quando saía da fábrica ia pela rua e era um reflexo condicionado e ele apertava os botões dos casacos das pessoas. 

Estava completamente alienado, a alternativa é essa, é em teoria nós estarmos em nossa casa, mas estamos numa terra de ninguém que já não é a família, já não é o trabalho, mas é qualquer coisa que pode verdadeiramente alienar-nos. Até à próxima.

 

 

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