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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Oncologia 2
Portugal regista a taxa mais elevada de cancros do estômago, na Europa.
TRANSCRIÇÃO

Prof. J. Machado Vaz: Tenho boas notícias para vocês e para mim. Vamos continuar à conversa com Prof. Manuel Sobrinho Simões. Tu falaste no Sr. Silva, que, aliás, é um arquétipo dos portugueses em todo o lado.

Prof. M. Sobrinho Simões: Exatamente.

Prof. J. Machado Vaz: E o que é que o Sr. Silva ao longo da vida pode fazer? Porque agora podemos ficar com a sensação de: “Bom, mas se isto leva 30 ou 40 anos, e eu vou ter um cancro aos 50 e tal, não posso fazer nada porque aos 15 ou aos 20 já estava”. Que margem de manobra em termos de estilos de vida saudáveis, que é por exemplo uma das coisas que estamos sempre a ouvir, é que a pessoa tem que tu aches que tem alguma eficácia na área do cancro?

Prof. M. Sobrinho Simões: Bem…

Prof. J. Machado Vaz: Agora já não estou a falar, por exemplo, de diabetes, de obesidade, etc.

Prof. M. Sobrinho Simões: Claro.

Prof. J. Machado Vaz: Embora, de uma forma indireta, se calhar tem influência.

Prof. M. Sobrinho Simões: Indiscutivelmente, mas não é por isso, quer dizer, a pessoa que tem uma diabetes ou que é obesa não é por caso do cancro que ele deve corrigir, não. É verdade que, se eu tiver um obeso e corrigir ou tiver uma diabetes e corrigir, o risco de ter cancro diminui muito, mas antes disso tem outras coisas, mais vantagens.

Prof. J. Machado Vaz: Sabemos porquê? Já agora.

Prof. M. Sobrinho Simões: Sabemos porque há uma atividade metabólica, e agora voltamos à história, à importância da pessoa.

Prof. J. Machado Vaz: Sim.

Prof. M. Sobrinho Simões: Por um lado, a próprio, se quiseres, do limite, a existência do metabolismo a fazer das células que se nutrem. E, por outro lado, sempre que nós temos uma doença como a diabetes ou como a obesidade, há uma inflamação.

Prof. J. Machado Vaz: Há.

Prof. M. Sobrinho Simões: E as pessoas não têm essa ideia. O que mantém as coisas sempre no sentido de dar para torto é a inflamação crónica e um tipo gordo tem um estado permanente de inflamação crónica.

Prof. J. Machado Vaz: É por isso que muitas vezes eu te oiço dizer: “Ai querem viver mais, e tal, e tal, emagreçam”?

Prof. M. Sobrinho Simões: Claro.

Prof. J. Machado Vaz: Pronto. Nós os dois não somos o exemplo disso.

Prof. M. Sobrinho Simões: Não (sobreposição de vozes).

Prof. J. Machado Vaz: Obrigado, obrigado. Mas então explica-nos isso.

Prof. M. Sobrinho Simões: Não, mas agora repara, tu estavas a dizer isso e é verdade. Portanto, uma pessoa, qualquer pessoa sabe que se for muito obesa, se for diabético, é evidente que, se a pessoa tiver a pouca sorte de ser um fumador, o risco é muito grande, mas, repara: a primeira coisa que eu penso que as pessoas devem pensar sempre é se vêm de alguma família em que haja um risco grande de cancro e de que tipo de cancro. Não é dizer assim: “Ai a minha velhinha, senhora, que tinha 80 anos teve um cancro do intestino”. É naturalíssimo, a toda a gente pode acontecer. Agora, se era um fumador e tinha um cancro do pulmão quando tinha 60 anos, tudo bem. Mas há situações ou familiares, do ponto de vista de repetição de certos cancros da mama ou da próstata, por exemplo, ou da tiroide, ou em cancros em crianças. Sempre que a pessoa tem um cancro numa criança, que, de resto, nós tratamos hoje muito bem e a sobrevida é muito boa.

Prof. J. Machado Vaz: Foi das áreas em que se avançou mais, não é?

Prof. M. Sobrinho Simões: Uma extraordinária evolução. Mas, aí, há um elemento genético. Portanto, a primeira pessoa que sabe que tem esta história deve saber e, portanto, tem alguma atenção. E, por exemplo, se for uma família de doentes que têm cancro da próstata, a avó e o pai, o rapaz sabe que deve começar mais cedo a…

Prof. J. Machado Vaz: A ser vigiado, não é?

Prof. M. Sobrinho Simões: Claro. Portanto, é uma atitude de bom senso. Qual é a outra coisa que a pessoa tem de fazer? A pessoa tem de evitar toda e qualquer agressão disparatada. Quer dizer, e isto agora é sempre a mesma coisa: é exposição ao sol, quer dizer, são coisas de bom senso. É evidente que a pessoa não pode permanentemente estar a beber demais, não pode, a pessoa tem de ter muito cuidado com as substâncias que hoje em dia estamos a utilizar, quer na alimentação quer em tratamentos porque algumas coisas fazem bem a umas coisas e fazem mal a outras. E, portanto, há um conjunto. E depois há outra coisa que é, agora é específico: se tu estás a pensar em termos da pele e se a pessoa tem uma pele muito clarinha, é pá: além de ter cuidado, de não estar a apanhar sol a horas disparatadas, tem que estar com atenção a se tem algum sinal. E agora voltamos àquelas coisas dos sinais, e é fazer com alguma frequência a colonoscopia, ou, no caso da mama, as senhoras fazerem o estudo da mamografia, ou o papanicolau. Em relação, mas agora não há muitas situações onde haja uma lógica.

Prof. J. Machado Vaz: Agora existia uma piada fácil, que era corrigir e dizer: “Nicolau, não, Francisco, Francisco”, mas enfim. (risos) Sim, mas pronto, o “velho” papanicolau continua a ser perfeitamente adequado.

Prof. M. Sobrinho Simões: Exatamente. E hoje em dia há quem faça não por citologia, com estudo molecular, mas é a mesma coisa. E é verdade que nós estávamos(sic) a morrer, muita gente em Portugal com cancro do colo do útero e diminuiu brutalmente, mas é uma melhoria espantosa. E começamos também a ter melhorias nos cancros associados a infeção.

Prof. J. Machado Vaz: Desculpe uma pergunta, Prof., de Antropologia Médica. Mas em termos da nossa realidade portuguesa, em termos geográficos, as populações são homogéneas nos exames que fazem, na sua adesão a essas precauções, ou há muitas assimetrias?

Prof. M. Sobrinho Simões: Não sei, assim não sei com segurança. Sei que há muita diferença, por exemplo, nós no Alentejo temos muito cancro da pele, e sabemos que o apoio no Alentejo, por razões de alguma pobreza, etc., nós temos pouca atenção aos sinais, e o melanoma, que é o cancro da pele, podia ser melhorado.

Prof. J. Machado Vaz: Claro.

Prof. M. Sobrinho Simões: E há, portanto, assimetrias, nós temos esta ideia, que é clássica, que no norte há mais cancro do estômago e associamos ao tipo de, ao sal e aos enchidos, não sei se é verdade. O que eu sei é que nós temos, apesar de tudo, em Portugal, globalmente muito mais cancro do estômago do que o resto da Europa. Se eu for comparar Portugal com a Europa do nosso mundo, eu não sei o que se passa na Rússia, e tal, mas nos países ocidentais a única coisa que nos distingue dos outros países ocidentais é ainda uma elevada taxa de cancro no estômago.

Prof. J. Machado Vaz: Mas quê? Estamos, por exemplo, a meio caminho com os japoneses?

Prof. M. Sobrinho Simões: Já temos menos, portanto, vou-te dizer, como é que eu hei de dizer? Já temos muito menos morte no Japão do que nós.

Prof. J. Machado Vaz: Palavra?

Prof. M. Sobrinho Simões: Pois. Porquê? Porque eles fizeram diagnósticos precoces com gastrectomia, não foi com prevenção primária, foi com prevenção secundária.

Prof. J. Machado Vaz: Ah porque eu sou do tempo em que, por exemplo, eles, para contratarem para as faculdades, as pessoas tinham de assumir um compromisso que faziam controlos periódicos.

Prof. M. Sobrinho Simões: Mas para diagnóstico…?

Prof. J. Machado Vaz: Para diagnóstico precoce.

Prof. M. Sobrinho Simões: Mas é… Diagnóstico precoce é prevenção secundária.

Prof. J. Machado Vaz: Claro.

Prof. M. Sobrinho Simões: Claro. É verdade que eles diminuíram muito aqueles “pickles” e é verdade que diminuíram o sal que nós, no Japão tinham muito. E outra coisa que é interessante: é que eles têm, são velhinhos, velhinhos, velhinhos, os japoneses não morrem, é um problema um bocado, não morrem. Bem, e eles, portanto, estão a ter agora os cancros dos velhinhos no Japão. Entre eles, continuam a ter estômago só que diagnosticam e não morrem. Portanto, nós temos mais cancro do estômago do que os outros países europeus, se calhar temos tanto que o Japão, o que morremos é mais em Portugal do que nos países europeus e no Japão. A China ninguém sabe, mas vai acontecer, vai ser uma explosão.

Prof. J. Machado Vaz: Bem, eu agora se calhar vou ser politicamente incorreto: não é a única coisa que sabemos pouco na China.

Prof. M. Sobrinho Simões: Exato.

Prof. J. Machado Vaz: Porque é que no cancro deveríamos estar assim tão mais bem informados?

Prof. M. Sobrinho Simões: Não, eu por acaso estudei muito o país, uma região do país, num país que é China, posso dizer, e eles têm muito cancro do esófago, também, e aí era por tabaco e pelo tabaco e álcool, um álcool ordinário. E era de tal maneira que a gente arranjou um processo com os noruegueses em que eles engoliam uma bola de arame e depois a gente puxava e vinha as células e fazia o diagnóstico de cancro nas células do revestimento.

Prof. J. Machado Vaz: Presumo que com alguma forma de anestesia, não?

Prof. M. Sobrinho Simões: Não.

Prof. J. Machado Vaz: A frio?

Prof. M. Sobrinho Simões: Sim.

Prof. J. Machado Vaz: Isso não é uma forma de colonialismo?

Prof. M. Sobrinho Simões: Mas fizemos isso na transição do século. Mas é, portanto, o que é impressionante, lá está, é eu de repente defrontei o problema da China, por causa dos noruegueses, e o nosso foi, a nossa coisa foi demonstrar que aquilo havia muito. E não havia como aquilo: eles engoliam, puxava-se e traz! Fazia-se o diagnóstico.

Prof. J. Machado Vaz: Acredito, estou horrorizado, mas acredito.

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