Ao navegar neste site está a dar o seu acordo às Condições Gerais de Utilização e à Política de Privacidade e Proteção de Dados Pessoais. Leia-as atentamente.

POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #adolescência
  • #conflitos
  • #parentalidade
Parentalidade 2
A nossa casa não é uma democracia.
TRANSCRIÇÃO

Olá, como eu avisei e ameacei, vamos continuar a falar de parentalidade.

Os especialistas escreveram tantos livros, fizeram tantos vídeos, etc., que nós acabamos por ver gente que está muito culpabilizada porque acha: “Eu não estou a fazer as coisas como devem ser feitas”. Com todo o respeito por tudo o que os meus colegas especialistas em educação escreveram e fizeram até agora, há uma dimensão que não pode ser esquecida, chama-se “bom-senso”. Não esperem que aquilo que nós somos como pais de uma criança seja exatamente o que somos como pais de um adolescente. Nós podemos ser pais pacificados e muito adequados de uma criança e, em contrapartida, vermo-nos em palpos de aranha com um adolescente. A maior parte das vezes, sabem porquê? Porque enquanto são crianças, com todas as birras, com todas as dificuldades, as noites mal dormidas, etc., eles são muito dependentes, e o poder, quer queiramos quer não, porque é de poder que se trata, o poder está quase completamente nas nossas mãos. Mas depois, quando se chega à pré-adolescência, à adolescência, quem nós temos pela frente é um bichinho completamente diverso, é um bichinho que, por um lado, quer manter todos os privilégios da infância, e, por outro lado, está ansioso por alcançar aquilo que considera - às vezes depois quando lá chega fica com uma visão mais matizada -, mas aquilo que considera os privilégios dos adultos, nomeadamente independência e autonomia. E alguns de nós suportam mal essa fase porque se sentem muito mais questionados, ou seja, em traços gerais, o que é que nos dizem os especialistas de desenvolvimento: quando nós queremos ter uma relação aberta de confiança, - eu disse “aberta”, não disse escancarada -, eu nunca fui partidário que tivéssemos a nostalgia de saber rigorosamente tudo acerca dos nossos filhos. Como, aliás, devo-vos dizer, também não sou adepto de tentarmos saber rigorosamente tudo acerca do nosso parceiro ou da nossa parceira, e para os mais novos, os mais novos também têm direito à sua privacidade. Por exemplo, a tentação de ir vasculhar diários à moda antiga ou telemóveis à moda moderna, não é bonito da nossa parte. Às vezes, porque estamos preocupados, lá caímos em tentação, mas devem ser exceções, exceções, exceções, e de modo algum a regra. 

Uma relação de confiança, como vos dizia, uma relação aberta, com um adolescente ou uma adolescente, não se constrói na adolescência. Ou essa relação foi construída na infância e se prolonga com mais sacudidelas na adolescência, ou então é muito difícil, e isso passa por, enquanto crianças, eles terem confiança em nós, estarem habituados, na medida do possível, conforme o seu grau de entendimento, a ouvir a verdade, estarem habituados a que nós sejamos capazes de cair em nós de vez em quando e dizer assim: “Desculpa, realmente eu não tive razão nisto ou foi injusto naquilo”. E se isso é construído então depois podemos esperar que na adolescência, em que mais a mais surge de uma forma perfeitamente clara a influência de um outro grupo, que é o grupo de pares, qual de nós é que se pode gabar não ter tido medo, pânico de deixar de ser aceite pelo grupo de pares? Nenhum. E, às vezes, o grupo de pares não está propriamente a jogar na mesma equipa do nosso pai ou da nossa mãe em questões de segurança, em questões de ocupação de tempo, etc. Acresce que hoje em dia há uma situação em termos de parentalidade que, daqui a 10/15 ou 20 anos, talvez não faça tanto sentido abordar, mas que hoje em dia ainda faz que é haver, no fundo, gente nova que já nasceu completamente imersa numa era tecnológica e haver pais que ainda conheceram a pré-história, por exemplo, de não estar toda a gente no Instagram, no Facebook, o Facebook para os mais novos hoje em dia já não interessa nada. Mas, enfim, a estar a tweetar e etc. No outro dia, ouvia um colega meu na rádio dizer: “Já viram a diferença dos recreios nas escolas secundárias? Antigamente, entrava-se e era uma balburdia, hoje em dia entra-se e com frequência é um silêncio, está tudo a teclar”. Pode ser difícil encontrar no fundo o quê? O equilíbrio. A parentalidade implica que haja o tal diálogo franco de que eu vos falava, mas, de vez em quando, implica um exercício puro e duro de autoridade. Isto parece-vos imperialista, nós não somos irmãos mais velhos dos nossos filhos, a nossa casa não é uma democracia. Suponhamos que eramos 5 lá em casa, 2 pais e 3 filhos, têm alguma dúvida de como é que acabariam as votações? Era 3-2 para eles, grande parte das vezes. Não, às vezes, há alturas em que nós temos de ser capazes de dizer assim: “Pronto, estamos em desacordo, mas nós, - portanto, os pais – dizemos que é assim, e, portanto, é assim que vai ser”. E um amuo não mata ninguém, uma discordância até é boa. Sabem porquê? Porque, desde crianças até adolescentes, se eles não se habituam também a ouvir não é muito complicado depois virem para a adultícia em que nós, uns mais do que outros, como é evidente, estamos fartos de ouvir um não. Eu falava-vos da questão da tecnologia, mas isso parece quási dar a entender que, “pois, isto houve modificações, mas só do lado deles”. E do nosso? Do nosso, quer dizer, eu já estou fora disso, já estou na altura dos avós. Veremos que os avós também têm algo, um papel a desempenhar nestas questões, mas estou a falar dos pais. E nas gerações dos pais? E a questão da conjugalidade? O que é que tem vindo a acontecer? O que é que acontece com o aparecimento das novas estruturas familiares? Como é que isto afeta a parentalidade? Como é que afeta o nosso desempenho como pais e como é que afeta o nosso relacionamento, digamos assim, com o outro que está connosco ou que eventualmente já não está connosco? 

Tudo isto são problemas que são problemas muito complicados, mas que são, ao mesmo tempo, problemas do quotidiano. Vou-vos dar um exemplo: estou a fazer este programa em época natalícia, quantos de vocês aí em casa não têm aquela articulação difícil de: “O Natal este ano é em casa de quem?”. Sim, mas o Natal, o quê? A véspera? O dia? Porquê? Porque houve uma família, depois passou a existir uma família aqui e uma família ali, às vezes, como escreveu o Zé Gameiro há muitos anos, há filhos, além dos nossos, há os teus, os meus e os nossos, e é preciso articular tudo isto de maneira a que ainda se possa dizer que a época natalícia é uma época de ao menos relativa paz. E por isso eu vos dizia e vos dava toda a liberdade para desaparecerem durante 15 dias que é um tema que, mesmo tocando apenas nos aspetos mais básicos da questão, seria completamente leviano ficar apenas por uma semana. Ia-vos propor, portanto, que falássemos de alguns desses temas da próxima vez. Fiquem bem.

 

Subscreva a nossa newsletter e seja o primeiro a saber do que se fala por aqui.

Para que precisamos dos seus dados?

Os dados pessoais por si acima facultados serão tratados para envio da newsletter que subscreve. Se nos der o seu consentimento, iremos também usar a sua informação para envio de comunicações relativas a produtos e serviços da Fidelidade que poderão ser do seu interesse. Recordamos-lhe que tem o direito de retirar o seu consentimento a qualquer momento. Os seus dados nunca serão utilizados por terceiros ou entidades externas à Fidelidade.



Gostaria de ser informado acerca dos produtos e serviços da Fidelidade?

Conheça aqui a Politica de tratamento e Proteção de dados Pessoais