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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #divórcio
  • #parentalidade
Parentalidade 3
A parentalidade passa pelo diálogo entre as pessoas.
TRANSCRIÇÃO

Olá! Para falar com franqueza, eu ia a dizer: o prometido é devido, mas atendendo ao aviso que fiz a semana passada, é mais honesto dizer que a ameaça é cumprida. Vamos continuar a falar de parentalidade. Teria sido mais fácil ficarmos apenas na questão do encaminhar da nossa garotada e isso está perfeitamente dentro do conceito de classe de parentalidade. 

Quando eu me divorciei, durante algum tempo vivi na casa dos meus pais por razões, - como é que eu vos hei de pôr a questão? – por razões ideológicas, e, portanto, estive lá um par de meses. E vejam que coisa curiosa: eu era pai de filhos e, no entanto, a minha mãe tratava-me por “Julinho” e puxava-me as orelhas se eu chegava muito tarde à noite, dizendo, o que era mais do que verdade, que eu ia trabalhar na manhã seguinte. Não é bem o que se espera da relação com um homem de 33 anos, pois não? Mas o que acontece, e eu garanto-vos que é assim porque já passei por lá, é que os nossos filhos continuam sempre a ter uma dimensão em que a adultícia deles, que nós não negamos, está misturada com o que eles continuam a ser nas nossas cabeças em termos de proteção, de preocupação, de carinho, etc. E nós paramos, não digo na fronteira, mas numa zona, digamos assim, fulcral a semana passada, que é os desafios novos que se colocam à parentalidade: a questão das separações. O que nos é dito é que 50% das relações ou perto disso hoje em dia desfazem-se. Suponhamos que há filhos, é importante dizer “suponhamos que há filhos” porque, antigamente, era um dado adquirido. Em primeiro lugar, antigamente não havia tantas coabitações como hoje em dia, casava-se mesmo, mas casava-se e tinha-se filhos, a não ser que houvesse problemas e talvez um dia façamos um programa só sobre os problemas relacionados com a infertilidade, que podem desaguar em questões muito graves, diga-se de passagem, para a própria vida do casal. 

Mas estava eu a dizer-vos, como dizem os franceses. “ça allait de soi”, se estamos juntos, é para ter filhos. Hoje em dia, não é assim, há casais que pura e simplesmente decidem não ter filhos. Ponto final. Estamos a falar de gente que se separou. E agora o que é que temos? Se quiserem, em termos geométricos, poderemos falar em geometria afetiva. Nós temos um triângulo, temos os dois pais e temos aqui um triângulo que pode estar completamente saturado de gente porque podemos estar a falar de 1 filho, de 5, de 6 ou de 10, mas pronto, sejam quantos forem, estão neste triângulo. Se há uma separação, vamos ser otimistas e dizer que esta separação foi adulta, civilizada. Então, a linha que une estes dois vértices do triângulo passou de traço contínuo a qualquer coisa que tem separações. A linha não é contínua, mas também não desapareceu. Em contrapartida, é nossa obrigação pelo menos tentar que as linhas que vão destes 2 triângulos dos dois pais para a filharada sejam reforçadas. Eles não pediram para nós nos separarmos, sobretudo os mais jovens, é completamente injusto pedir-lhe que entendam as razões por que nos separamos, que são mais do que válidas, as mais das vezes, mas não para a compreensão deles, portanto, isto gera insegurança, se gera insegurança, eles têm direito a sentir-se, se possível, ainda mais seguros dos afetos de cada um dos pais. E isto é fundamental e infelizmente nem sempre acontece. Umas vezes, um dos pais desaparece do horizonte, outras vezes, quando as separações não são civilizadas, mesmo que não o queiramos fazer, acabamos a utilizar os nossos filhos como armas de arremesso e isso, em teoria, é impensável, na prática, acontece. E isto esgota a questão? Não, não esgota porque, como, aliás, sugeri da última vez, numa família monoparental, nós temos alguém que é obrigado ou obrigada a desempenhar funções que deveriam ser divididas por dois. Além disso, não é raro que quem está menos presente tenha uma abordagem com as crianças que é uma abordagem de: “Comigo é tudo fixe, comigo vai-se ao cinema, comigo vai-se jantar fora, etc.”. E quem lá está em casa é que tem de lidar com as notas más, com os amuos, etc. Isto não é fácil e nem sequer é justo: mais uma vez, a parentalidade passa pelo diálogo entre as pessoas. Porque é que eu vos dizia que até os avós tinham a ver com esta questão? Durante a crise, todos vocês ouviram notícias sobre alguns dos mais velhos que receberam em casa os seus filhos, que tinham perdido as suas próprias moradias, os seus próprios andares e que voltaram à casa dos pais. Às vezes, com filhos. E, portanto, assistimos àquilo que os meus colegas chamam o “efeito boomerang”, que é voltarem os filhos já adultos e, em grande parte, serem ajudados, a todos os níveis, inclusivamente o financeiro, tivemos idosos a deixar lares para terem dinheiro para apoiar duas gerações em suas casas.

E, portanto, nestas situações é que nós verdadeiramente nos apercebemos de que, noutras também, mas escolhi esta, nos apercebemos que a questão da parentalidade vai muito para lá dos berços da pré-primária, do secundário. Na realidade, o exercício da parentalidade, neste caso, neste exemplo que vos dei, de uma forma triste e pesada, mas que os mais velhos, evidentemente, jamais recusaram, vai até ao fim porquê? Porque os nossos filhos, são os nossos filhos, são os nossos filhos até à hora da nossa morte e nós tentamos e às vezes conseguimos e outras vezes falhamos ser os melhores pais possíveis. Até à próxima, fiquem bem.

 

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