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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Poluição/Ruído 1
O silêncio tornou-se ameaçador.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Lembrei-me de falar de poluição sonora. Acho que há assim uma declaração inicial que não levantará grandes dúvidas.

As nossas cidades - estamos a falar, sobretudo, das cidades - as nossas cidades estão cada vez mais barulhentas. Mas, em contrapartida, os movimentos populacionais não fazem nenhuma tensão de mudar e diz-se que, por volta de 2050, 2/3 de todos nós viveremos em cidades, o que transforma, entre outros, o problema da poluição sonora em algo que assume importância nas nossas vidas. Há uma média de 2 a 3 decibéis de aumento de volume nos bairros mais pobres quando comparados com os bairros mais ricos. Ou seja, como alguns autores dizem a segregação sonora acompanha a segregação social e económica. Que não é muito de admirar! Olhem, os ingleses falam muito disso em relação a Londres, dizendo que há bairros que estão muito mais perto de linhas de comboio e, portanto, sujeitos a um massacre auditivo muito maior do que, evidentemente, bairros mais ricos. 

Não é nada raro - quando se fala de poluição sonora - e com razão que nós nos preocupemos com os mais novos. Por vezes até com algumas visões catastrofistas que é "Ui, mas com aqueles auscultadores, ouvindo em altos berros". Vamos ser honestos, isto não começou agora. Os meus netos que eu saiba, nunca ouviram Led Zeppelin, mas eu ouvi e ouvi com auscultadores e não era nenhuma brincadeira. Agora, talvez não com a frequência e a facilidade que, hoje em dia, isso acontece. E é óbvio que... porque é que nós ficamos preocupados? Sobretudo, por questões auditivas. E a preocupação é justificada, os meus colegas otorrino dizem-me. Mas se pensam que estamos só a falar de patologia a esse nível, estão completamente enganados. 

Hoje sabemos que a poluição sonora desempenha o seu papel - que não é o único, há mais atores, nesta peça - mas desempenha o seu papel em condições tão diversas como a tensão arterial, que tem tendência a subir e a obesidade. Desconfio bem que um fator comum a isto é o stress. Desde logo, quase toda a gente diz "Quando estamos mais nervosos, mais tensos, mais stressados, a tensão arterial tem tendência para subir". Em contrapartida, a relação com a obesidade desconfio bem que tem muito a ver com comportamentos compensatórios. Nós não somos todos iguais, mas há muitos que se estiverem mais tensos - se estiverem mais tristes, também, diga-se de passagem - mas se estiverem mais tensos, entre aspas, vingam-se no copo e no prato e isso pode ser mais um dos fatores que facilita o aparecimento da obesidade. Aqui, porque lhes disse "Mais um, olha...". Algo que aparentemente está a anos-luz da obesidade - como poderia ser decretada a insónia - não está. Também há estudos que dizem que quanto pior dormimos, maior a probabilidade de depois nós pecarmos - perdoarão a formulação judaico-cristã - à mesa. 

Mas a questão do ruído põe-se a todos os níveis. Nós estamos afundados em artigos a chamar a atenção para o excesso de ruído nas unidades de saúde e como isso é prejudicial aos doentes internados, sobretudo, mas a todos eles e ao próprio pessoal que trabalha nas unidades hospitalares ou nas unidades, digamos assim, mais próximas do terreno. De tal forma que, há relativamente pouco tempo, nós tivemos iniciativas até governamentais no sentido de isso ser uma das variáveis a abarcar em próximas intervenções no nosso Serviço Nacional de Saúde.

Provavelmente, o pior de tudo isto é que nós habituámo-nos. Vou-lhes dar um exemplo fora da medicina. Eu tenho o privilégio e o prazer de partilhar uma tertúlia mensal com vários colegas meus. Um, por exemplo, o Professor Manuel Sobrinho Simões que é consensualmente considerado o polo aglutinador da tertúlia. Mas um de nós, heroicamente, não é médico, que é o Engenheiro Oliveira Dias. E uma vez, nós estávamos a almoçar num determinado restaurante e ninguém tinha levantado grandes questões quanto ao nível de ruído e o Engenheiro Oliveira Dias, pela sua própria formação, estava mais atento. E com todas as aplicações que os nossos telemóveis têm hoje em dia, ele - permitam-me o plebeísmo - sacou do seu, ligou uma determinada aplicação e sabem o que é que dizia a aplicação? Dizia que nós estávamos alegremente a almoçar com 80 decibéis de ruído ambiente, quando o limite aconselhado é 45. Ou seja, quase com o dobro. E ninguém notava. Com a agravante que, quando se está a falar muito alto, a tendência para combater isso não é falarmos mais baixo ou pedir aos outros que o façam, é nós próprios também falarmos mais alto. Isto acumulado, transforma-se num verdadeiro massacre. 

É evidente que isto resulta do tipo de vida que nós fazemos hoje em dia. Desde a indispensável ambulância, àquele homem que gosta de afirmar a sua masculinidade porque tem um escape que faz mais barulho que os outros, ou outro que abre a janela de um carro e põe a música em altos berros. Tudo isso, hoje em dia, é civilizacional, mas há outra coisa que a mim, como psiquiatra, me fascina e me assusta ao mesmo tempo que é: sob certos aspetos, não só vivemos numa sociedade terrivelmente ruidosa, como numa sociedade que passou a conviver mal com o silêncio. E como psiquiatra, com a minha formação profissional, eu não posso deixar de vos confidenciar uma das minhas suspeitas: é que o silêncio para nós também se tornou ameaçador, porque o silêncio tem tendência a obrigar-nos a virarmo-nos para dentro, a olhar para espelhos interiores e nós vivemos numa sociedade que não aprecia nada isso e que, portanto, de uma forma inconsciente, assim como teme muito o que seja o ócio, a paragem... Vamos ser honestos: nós às vezes arranjamos formas de nos mantermos ocupados, porque já perdemos o hábito de abrandar. Eu receio bem que a nível de estímulos sonoros nós tenhamos hoje muito menos medo de barulho a mais do que barulho a menos. 

Mas como vocês sabem, os psiquiatras é gente que é complicada, que também gosta de complicar as coisas. Portanto, se calhar, esta parte final é pura e simplesmente para deitar ao lixo. Eu não fico ofendido. Até à próxima.

 

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