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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Psico-oncologia
Numa doença como o cancro, o acompanhamento psicológico é indispensável.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Tivemos o privilegio de ouvir o Professor Sobrinho Simões - para mim, o Manuel - que nos falou do cancro em termos gerais, que nos falou, no fundo, da evolução desta relação pouco amistosa, felizmente, entre os profissionais de saúde e uma doença que se transformou na primeira causa de morte nas nossas sociedades. 
Se lerem sobre este tema, mais parágrafo, menos parágrafo, mais página, menos página, vão tropeçar num palavrão que é psico-oncologia. O palavrão o que é que quer dizer? É óbvio. Com oncologia e psico, tem a ver - como se diz hoje, muitas vezes - com o interface entre oncologia e psicologia. E porquê? 
Se nós dizemos das doenças em geral, de uma simples gripe, que há sempre aspetos psicológicos, o que é que poderemos negar das consequências a nível da adaptação, da redução - da tentativa, pelo menos, da redução - de sofrimento, na área oncológica? Também aqui, como compreendem, as modificações da clínica levaram a modificações da nossa prática. Ou seja, aqui há 15, 20 anos, na maior parte dos casos, um diagnóstico de cancro tinha um significado completamente diverso do que tem hoje. A maneira - diria até, supersticiosa - como nós abordávamos a questão, era manifesta nos noticiários. Nós nunca ouvíamos falar de cancro nos noticiários. Alguém morria, como? De doença prolongada. Uma espécie de exorcismo, como se nós disséssemos "Não falamos na palavra e pode ser que ela não entre por uma janela entreaberta, em nossa casa". Bom, isso mudou muito.
O prognóstico, em grande parte dos cancros, mudou. Nós, como vivemos mais, teremos que lidar - grande parte da população - com, pelo menos, pelo menos, um cancro ao longo das suas vidas e, felizmente, sobrevivemos. Com uma doença destas metida ao barulho, um acompanhamento psicológico não é indispensável? Claro que é indispensável. Suponhamos o tempo que medeia entre fazer uma biopsia e saber um resultado. Hum, pode haver exceções, mas a ansiedade é a regra, não é? Está-se à espera ou da próxima consulta, ou de um telefonema, ou de um mail... Não conheço casos por Instagram, para falar com franqueza, mas também estou disponível para aceitar. E uma pessoa que é que se pergunta? "Vou ter sorte?", "Não vou ter sorte?". Alguns de nós fazem até negócios com o destino, que é: "Se tiver sorte, mudo o meu ritmo de vida. Passo a não levar trabalho para casa ao fim de semana". Outros, de uma forma mais que legítima, porque têm fé, pedem a alguém, à transcendência, que lhes conceda a graça de terem sorte.
Diga-se de passagem que uma ansiedade destas pode permanecer depois de um diagnóstico favorável. Agora, vamos supor que as coisas não correm bem.
Neste país, nós ainda não temos o apoio que os meus colegas dos cuidados paliativos merecem e exigem, não por eles, mas por todos nós. E aí, a dimensão psicológica é muitíssimo importante. Nós, muitas vezes, temos uma visão muito estreita do que são cuidados paliativos. Parece que pensamos - ou pensamos mesmo - que são medidas, digamos assim, para melhorar a qualidade de vida de alguém, nos últimos 2 ou 3 meses antes de um desfecho fatal. Não é nada disso. É muito mais do que isso, em relação à própria pessoa e em relação a quem a rodeia, nomeadamente os familiares, que também precisam de apoio psicológico.
Há determinados temas que provavelmente estão atravessados na garganta de um familiar, mas que não podem ser abordados na presença do doente. E, portanto, essa pessoa também tem o direito de ser apoiada. Quando há crianças metidas ao barulho, os grupos que às vezes são organizados para familiares de doentes oncológicos. Os grupos costumam funcionar muito bem a todos os níveis de patologia, porque é reconfortante falarmos com outras pessoas que estão na mesma situação que nós. E portanto, estamos a falar de intervenção psicológica individual, para quem padece da doença, e também em termos grupais, nomeadamente, familiares. Eu disse "grupais", de um outro grupo que muitas vezes esquecemos, que são os profissionais de saúde. Longe de mim dizer que os profissionais de saúde de outras especialidades não têm as suas angústias, as suas dúvidas, as suas tristezas. Óbvio, mas na área da oncologia, como compreendem, isto põe-se ainda com maior agudeza. Ainda há muito preconceito em relação a isto. E muitos de nós ainda fomos educados numa postura de "Temos que pôr uma couraça, uma armadura e fazer de conta que o que se passa à nossa volta" - e, às vezes, é o adejar da morte - "não nos toca". Isto não é bom para o profissional de saúde e nem sequer é bom para a sua relação terapêutica. É preciso dar a estes profissionais de saúde a possibilidade de se porem em contato mais pacificado com os seus próprios sentimentos.
Eu li há pouco um artigo em que, perante esse tipo de situação, se fazia perguntas a diversos profissionais sobre como lidavam com estas questões. E alguns diziam "Olhe, eu às vezes acabo metido no carro e choro". Outros diziam "Eu vou a correr para casa e vou brincar com os meus filhos e gozar o privilégio que é estarmos todos juntos". Aqui - e desculpem puxar a brasa à minha sardinha - de vez em quando, até se verifica a velha descriminação em relação ao sofrimento psicológico. Há colegas nossos, noutros países, que pedem apoio e vão ter apoio noutras unidades hospitalares que não a sua, porque têm medo de que imagem passarão aos seus colegas, se eles souberem que eles foram pedir apoio psicológico.
E isto não pode ser assim. Quem está em sofrimento psicológico - seja o doente, seja a família, sejam os profissionais - tem direito a esse apoio, e a sociedade e o Estado têm a obrigação de lho dar. Dar-lhes-ei um exemplo que me acompanhou a vida inteira, porque o li há décadas e décadas. Era um país nórdico, um psicoterapeuta de crianças e de um serviço de oncologia. Descreveu a sua experiência num artigo em que dizia "Eu soube que tinha de parar, no dia em que um miúdo me disse: eu sei que vou morrer, só tenho pena de não chegar ao verão, porque ainda gostava de voltar à praia. E naquele dia, eu percebi que não aguentava mais". É legítimo que alguém se vá embora. O que não é legítimo é que não haja os recursos necessários para as pessoas aguentarem melhor, situações de stress prolongado tão fortes, tão deletérias para a saúde física e psíquica como estas.
Fiquem bem. Até à próxima. 

 

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