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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Psicologia e Profissionais de Saúde
Neste momento, eles são os nossos heróis, mas não nos podemos esquecer que amanhã vamos continuar a precisar deles.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Numa situação destas, acho que não há grandes dúvidas desse lado que tema é que eu vou abordar. Mas dentro desse tema, eu senti que era uma obrigação moral falar dos profissionais de saúde. Dos meus colegas - não é o meu caso, mas dos meus colegas que têm estado na linha da frente, nesta situação de pandemia que nos traz a todos, quer queiramos, quer não, angustiados e preocupados. 

E o meu bom amigo - o Professor Espiga de Macedo, teve a gentileza de me dar a ler um artigo do fim de março do The British Medical Journal, precisamente sobre os profissionais de saúde e a sua reação. Agora vamos entender-nos: eu sou Psiquiatra, portanto vou continuar a falar sobretudo de aspetos psicológicos. E numa entrevista ao Observador, há um tempo atrás - semanas, é capaz de ser exagero, atendendo ao dia em que eu estou a gravar - mas o Bastonário da Ordem dos Psicólogos dizia que tínhamos de estar atentos à terceira vaga. E porquê a terceira vaga? A segunda vaga é o nosso receio de que, à medida que se for dando alguma abertura a todas as sociedades, que haja uma segunda vaga de infeções. Quando ele fala da terceira vaga tem a ver com a com as consequências psicológicas. Seria fácil dizer: - Bom, os profissionais de saúde são pessoas como as outras todas. Pois são. E por isso mesmo, não só estão na linha da frente como, ainda por cima, muitos deles têm que lidar com o medo de infetar as suas famílias. Há alguns a dormir em hotéis, em estabelecimentos hoteleiros que também, além dos habituais - estou-me a referir ao Alojamento Local - abriram as portas, etc.  Mas, aquilo que vos queria falar era das eventuais - vamos entender-nos: não estou a falar de todos os profissionais de saúde, mas as eventuais consequências psicológicas de um período de stress brutal, como este é.

E vou-vos falar sobretudo do quê? De ansiedade, de depressão e de stress pós-traumático. O stress pós-traumático, aliás, que nós estamos demasiado habituados a ligar só às questões da guerra. Houve a nossa Guerra Colonial e os nossos combatentes que sofriam, e sofrem, de stress pós-traumático, tiveram que esperar anos até serem diagnosticados e até começarem a ser acompanhados. Bom, isto significa que depois de uma situação destas, muitos dos meus colegas - esperemos que apenas alguns, mas podem ser muitos - sofrerão consequências a médio e a longo prazo, daquilo porque passaram. Quando eu falo de sintomas depressivos, não há grandes dúvidas. Quando eu falo de crises de ansiedade, não há grandes dúvidas. Se eu lhes falar de comportamentos no desempenho das suas próprias profissões, vocês aí já podem ficar um pouco mais surpreendidos. Mas é verdade, os estudos estão feitos. Os profissionais de saúde, às vezes, um, dois anos depois de algo como o que estamos a atravessar, podem ter... Olhem um exemplo comezinho: estão numa consulta normalíssima e o doente que os veio procurar começa a tossir e eles podem ter um movimento de recuo. É um reflexo, é uma marca que ficou. Como compreendem, não pode ser compreendido por quem está à nossa frente.

Em termos psicológicos, o stress pós-traumático - os trabalhos estão aí para o mostrar - podem permanecer dois, três anos mais tarde. E isto é complicado. Porque podemos ter todos os sintomas clássicos: a insónia, as crises de ansiedade, a pessoa tornar-se mais introvertida, haver no seu funcionamento um maior distanciamento dos seus doentes, etc. E isto significa que as instituições têm que estar atentas e têm que estar disponíveis para o apoio psicológico aos profissionais de saúde. Agora. Ou seja, durante aquilo que estamos a atravessar. E, com especial atenção, depois também. Os aspetos físicos - esperemos que sim - os aspetos físicos desta pandemia numa determinada altura estarão muito mitigados e, com uma vacina, quiçá, resolvidos. É uma ilusão pensarmos que, em termos psicológicos, mais nada está a acontecer ou pode vir a acontecer. E para isso, temos de estar prevenidos. E devo-lhes dizer que foi com satisfação que eu soube do protocolo estabelecido entre o Governo, o Ministério da Saúde e a Ordem dos Psicólogos, de maneira a haver apoio psicológico durante, neste momento. Temos que nos manter atentos para o depois. E temos que manter também no espírito algo que é importante: é um conceito que, em geral, nos referimos como sendo um dano moral. O que é que isso significa? Quem de direito - e até aqui, em Portugal, as coisas têm corrido bem - quem de direito tem que proporcionar aos profissionais de saúde boas condições de funcionamento. 

No artigo que o Professor Espiga de Macedo me deu a ler, isso é expresso de uma maneira límpida. É dizer que um profissional de saúde tem de ter a possibilidade, quando está a dar uma má notícia a uma família, a um cônjuge, de dizer: - Fiz tudo o que pude. Ou: - Fizemos tudo o que podíamos.  Em vez de dizer ou estar a pensar: - Fiz tudo o que pude. Ou: - Fizemos tudo o que podíamos com aquilo que tínhamos à nossa disposição. Não é a mesma coisa. E este dano moral, muitas vezes, é muito complicado porque induz sentimentos de tristeza, de depressão, de revolta, de falta de confiança no próprio sistema. E isso é algo que os profissionais não merecem.  E o artigo termina de uma forma lapidar, dizendo... Isto passa-se em Inglaterra, onde como em Portugal, a população em geral tem sido de uma enorme gratidão para com estes profissionais de saúde e, sobretudo, com as suas joias da coroa, o Serviço Nacional de Saúde. Mas a frase é extraordinária, porque diz assim: “Neste momento, eles são os nossos heróis, mas não nos podemos esquecer que amanhã vamos continuar a precisar deles.”

É exatamente isso a que eu me refiro quando falo da preparação para esse apoio psicológico. Dizem que eu sou um chato que se despede sempre dizendo: - Fiquem bem. Agora não. Digo: - Cuidem-se, uns aos outros. Até para a semana.

 

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