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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Relação médico-doente 1
O que é isto da relação médico-doente? Há mais do que um tipo?
TRANSCRIÇÃO

Hoje vamos falar da relação médico-doente. E, quando eu pensei nisso, houve um nome que de imediato se impôs ao meu espírito, alguém que nos deixou não há tanto tempo como isso e que pensou a medicina em geral e a relação médico-doente em particular como poucas pessoas conseguiram fazer em Portugal: o prof. Lobo Antunes. E, portanto, iríamos começar com algumas linhas do seu livro “Ouvir com outros olhos”, de 2015.

“Não sei o que nos espera mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão.” 


O que é isto da relação médico-doente? Há mais do que um tipo? Há discussão sobre isto? Bom, eu continuo com as perguntas. Já repararam na quantidade de congressos que andam por aí, às vezes com tarjas nas paredes das instituições sobre a humanização da medicina. E nós interrogamo-nos: a humanização da medicina? Mas porquê? A medicina tornou-se desumana? Já repararam que muitos colegas meus, quando escrevem sobre isso, têm o cuidado de salientar que não estamos a falar de televisores nas enfermarias ou de vasos de flores nos quartos, estamos a falar de outras coisas. E que outras coisas são? Não deixa de ser curioso e fazer-nos pensar que as maiores queixas dos doentes em relação a nós não dizem respeito à competência, dizem respeito a falta de respeito para com eles, a falta de informação e o nosso contacto. E por isso muita da humanização na medicina tem a ver com sairmos do modelo completamente paternalista, que era o clássico – não vale a pena negá-lo, com todas as honrosas exceções que existissem –, em que havia um médico especialista todo poderoso e alguém que lhe trazia queixas que, uma vez ouvidas, - diga-se de passagem, ouvidas de um modo demasiado apressado, há estudos que dizem que, por vezes, os médicos interrompem quem lhes vem apresentar as suas maleitas 16 a 20 segundos depois de eles começarem a falar. Caramba! É o que se chama “estar muito apressado, para sermos nós a tomar as rédeas”, não de um diálogo, mas quase um interrogatório. Ora bem: felizmente, isso tem vindo a mudar e tem vindo a mudar transformando a relação médico-doente num encontro de 2 sujeitos – “sujeitos” com “S” grande -, com deveres e com direitos, em que, de um lado, está um especialista da “Doenças”, com “D” grande, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “the disease”, e, do outro lado, está o especialista da sua doença particular, que ele conhece melhor que ninguém, a que os anglo-saxónicos chamam “illness”.

Se nós escutarmos a vivência desta doença privada, se lhe dermos espaço, se ouvirmos as opiniões do doente, se entrelaçarmos, - e isto não tem nada a ver com ameaça àquilo que é o nosso estatuto -, estava eu a dizer: se entrelaçarmos os dois saberes, vamos com mais facilidade ao fundo da situação e do problema e com muito mais facilidade também a um diagnóstico e a uma proposta terapêutica. E quanto à terapia não quero acabar sem vos deixar uma nota: um homem chamado Balint escreveu, há mais de 30 anos, algo que se mantém perfeitamente na ordem do dia: é que nós, os profissionais de saúde, principalmente os médicos, também somos parte do tratamento e Balint descreveu que o médico prescreve-se a si mesmo. É verdade. Se a relação connosco é de confiança, isso, por incrível que possa parecer a espíritos mais céticos, contribui para a melhoria dos sintomas. Fiquem bem.

 

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