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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Relação médico-doente 2
Porque será que o prof. Lobo Antunes exprimia receios a nível da ciência, da burocracia e da tecnologia?
TRANSCRIÇÃO

Vamos continuar a falar da relação médico-doente. Porque será que o prof. Lobo Antunes exprimia receios a nível da ciência, da burocracia e da tecnologia?

Vamos seguir a ordem. A nível da ciência. Claro que a ciência é importantíssima, ninguém o nega. Mas não é possível lermos de vez em quando, hoje, artigos que dizem: “a expressão “arte da medicina” deve ser banida dos livros de texto, dos currículos e do nosso diálogo com os alunos”. A arte da medicina não é “apenas” – entre aspas – ser capaz de uma boa comunicação, a arte da medicina é também a capacidade de discriminar, é a capacidade de perceber que um medicamento que provou ser eficaz em determinada doença pode, por variadíssimas razões, não ser eficaz como desejaríamos naquele doente. Olhem, por exemplo, porque há outro tipo de medicações para outro tipo de patologias. Quando nós pedimos uma bateria de análises, - e há muito pouco tempo a Ordem dos Médicos disse: “não devemos fazer dos exames anuais um ritual, com todas as análises possíveis e imagináveis”. Ou seja, devemos pedir “com conta peso e medida”, para aquele doente em particular e são meios auxiliares de diagnóstico, não se devem transformar em meios de encontrar o diagnóstico, ou seja, consciente ou inconscientemente pensarmos assim: faço análises a tudo e alguma coisa há de vir anormal. O que é mais do que verdade, com tantas análises que podemos fazer é quase merecedor de um prémio alguém que tenha tudo normal, mas não é a boa maneira de fazer Medicina.

Mas o prof. Lobo Antunes falava de burocracia. Os meus colegas, nomeadamente os de medicina geral e familiar, estão soterrados em burocracia. Antigamente, burocracia era sempre sinónimo de papéis, mas hoje em dia não é de papeis que se fala, é de campos em computador a preencher, o que é muito complicado na relação médico-doente porque os médicos queixam-se de não ter tempo para falar e para escutar, não é simplesmente ouvir os doentes, e os doentes queixam-se de falta de atenção. O que é que se privilegia: a quantidade de atos médicos, incluindo consultas, ou a qualidade deles? É que não é a mesma coisa. Se o que perseguimos é números cada vez maiores de atos médicos, temos de estar preparados para que a qualidade sofra com isso. E nem sequer é rentável a médio-prazo porque boas consultas vão acabar por diminuir os pedidos de consultas, e, em termos de estratégia global também é importante. Pensem nisto: pensem em termos religiosos. Acham que a maior parte das pessoas que vai à missa vai à missa na catedral da sua cidade, por exemplo, da sua capital? Não. Vai à missa nas suas paróquias, nos padres que lá estão e que conhecem bem. Bom, se não reforçarmos os cuidados primários o que acontece é que estas pessoas que não encontram respostas naquilo que é a resposta no terreno que está ao pé delas vão, desculpem-me o termo, “entupir as catedrais da medicina”, leia-se: os hospitais centrais, e o futuro da medicina não é esse, é, cada vez mais, a descentralização.

Por último: a tecnologia. A tecnologia, abençoada tecnologia. Na relação médico-doente, estou convencido que ainda verei não ser necessário preencher nenhum campo de computador nem escrever uma linha porque tudo será digerido pela inteligência artificial e estará à nossa disposição, libertando-nos para o doente. Mas isso significa que também não podemos alimentar sonhos preguiçosos e de ficção científica em que a tecnologia resolve tudo. Por exemplo, ler artigos em que colegas meus dizem: “a inteligência artificial já está praticamente capaz de acompanhar alguém que está na fase final da sua vida até à morte”. E escrever no mesmo artigo: “a inteligência artificial é mais eficaz do que os médicos humanos”. Quando se escreve “médicos humanos” está-se a partir do pressuposto de que há médicos não humanos e eu não estou preparado para ler isso. Deixo-lhes um exemplo de um livro muito interessante que li, há alguns meses atrás, chamado “Doente digital”. Uma família teve de decidir se se desligavam as máquinas ou não de um seu familiar e decidiu que sim. O que acontece é que uma das máquinas continuou a funcionar e o médico viu que um dos membros da família estava hipnotizado por aquele traçado. Foi desligar a máquina, pôs-lhe a mão num ombro e disse: “Aquele traçado não tem nenhum significado”. Nunca a inteligência artificial terá a sensibilidade para esta mão no ombro e este esclarecimento.

Começamos com o prof. Lobo Antunes, acabamos com alguém que ele muito admirava, Sir William Osler, que um dia escreveu: “O bom médico cura a doença, o grande médico cura o doente”. Fiquem bem.

 

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