Ao navegar neste site está a dar o seu acordo às Condições Gerais de Utilização e à Política de Privacidade e Proteção de Dados Pessoais. Leia-as atentamente.

POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #envelhecimento
  • #sexualidade
  • #conjugal
Sexualidade depois dos 60
Os afetos são tão importantes como o sexo puro e duro.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Se eu não estou em erro, há uns meses largos atrás, quando falei de envelhecimento em geral, eu prometi que falaria de sexualidade e envelhecimento. O prometido é devido: faço-o hoje. Mas primeiro, vamos entendermo-nos quanto às palavras. Se sexualidade e sexo fossem sinónimos, era um desperdício de energia e de léxico. Devemos dizer que a palavra sexualidade é bem mais recente, é de meados do século XIX. E, em termos gerais, acho que ninguém estará em desacordo, na investigação, na clínica, se eu disser que sexo é um conceito mais restrito e que, em geral, nós utilizamos quando nos referimos a comportamentos sexuais e sexualidade - como aliás a sua própria definição implica - é algo de muito mais lato e que, sobretudo, envolve os afetos. Vamos começar, se calhar, daquilo que é a fisiologia, do físico, e depois lá estenderemos um ou outro tentáculo para questões mais globais. Só o peso simbólico da atividade sexual é que explica que, de vez em quando, fiquemos ou surpreendidos, ou metidos em discussões intermináveis sobre o chamado declínio sexual. Eu disse "o chamado", porque é assim: ninguém pede - como sabem, há atletas com uma longevidade extraordinária, não é, mas falando do vulgar de Lineu, ninguém pede a um homem ou uma mulher de 60 e tal ou 70 anos que faça os mesmos exercícios físicos que faz aos 30 e 40. Isto é considerado normalíssimo. Até se diz: "Bem, continua a ter atividade física de manutenção". Só nos faz bem, mas quando se fala de sexo, as coisas complicam-se porque - como eu dizia há pouco ao empregar a palavra "declínio" - há uma certa sensação de ameaça naquilo que é o estarmos vivos, no pensamento de que possa haver modificações e, evidentemente, modificações para pior. E, desde logo, aqui precisamos de fazer um ponto da situação importantíssimo. 

Quem faz clínica de sexologia como eu, ouve todas as semanas pessoas, ou casais, dizerem que têm 50 e tal anos, ou 60 e tal anos e que a sua vida sexual - estou a falar, a vida sexual, estrito senso - é, por exemplo, menos frequente do que era há 20 anos atrás, mas é mais gratificante. As pessoas conhecem-se melhor, caíram determinados tabus, consciente ou inconscientemente não estamos a provar tantas coisas a nós mesmos - e então nós homens, temos uma péssima reputação de precisar de provar uma data de coisas, a nós, às mulheres, se estiver a falar de heterossexuais, e desconfio bem, sobretudo, aos outros homens, em comparação - e, portanto, o sexo torna-se mais tranquilo, mais pacífico e mais gratificante. É evidente que no nosso trajeto de vida há aqui ou acolá pontos que, pelo menos, devem ser referidos. Vejam a questão da menopausa: a questão da menopausa, em primeiro lugar, hoje, está desdramatizada. Isso não significa que não possam surgir situações físicas, por exemplo, ao nível da lubrificação, mas que são situações perfeitamente resolúveis, hoje em dia. E agora perguntam-me: "Ó seu machista, e porque é que não fala da andropausa? Claro que falo. O que não é, é tão simples em termos fisiológicos. As alterações fisiológicas que encontramos na menopausa, não são alterações que se possam mudar, como uma empresa daquelas que vão de uma casa para a outra com os móveis, para o conceito de andropausa. Em termos hormonais, não há sobreposição, em geral. Em contrapartida, se falarmos de andropausa como um período da vida dos homens em que há maiores dúvidas em relação a tudo, incluindo o desempenho sexual, em que pode haver alterações a nível da própria memória, a nível físico geral, etc., muitos dos homens podem preencher esses critérios. Podem surgir dificuldades aos mais diversos níveis, ou pelo passar dos anos, sei lá, uma maior dificuldade - estamos a falar de homens, continuemos nos homens - uma maior dificuldade de obter ereção. E aqui, nunca é demais salientar a importância da comunicação, porque às vezes - suponhamos que estamos num casal heterossexual - instala-se um mal-entendido profundamente desnecessário, mas que pode abalar as fundações do casal, que é: aquele homem precisa de maior colaboração por parte da sua companheira para ter ereção, mas não o diz, até por uma questão de virilidade. Ela apercebe-se dessa maior dificuldade, não diz nada, mas que é que pensa? "Ele já não se sente tão atraído por mim, como antes. Ou será..." - vamos modificar o género - "...que há moura na costa?". 

E cada um fica com os seus fantasmas para seu lado e, se calhar, afastam-se e não há necessidade. Pulemos para a sexualidade. A que é que nós assistimos hoje? Nós assistimos a gerações de sessentas e setentas que se divorciam, se voltam a juntar, se voltam a casar, etc., que se apaixonam, que têm namorados e namoradas e o dizem sem qualquer problema, porquê? Porque temos, na realidade, a geração dos anos 60 do século passado que recusou estereótipos, em termos daquilo que é a sua vida afetiva, daquilo que é a sua amorosa. E portanto, é preciso ter a noção de que a sexualidade nasce connosco e morre connosco. Querem uma prova extraordinária em relação a isto, e como sexualidade e sexo andam, ao mesmo tempo, de mão dada, mas não estão abraçadas, muito menos sobrepostas? Os inquéritos dizem-nos - a casais heterossexuais - que muitos casais que preenchem todos os critérios para serem diagnosticados como apresentando disfunções sexuais, se consideram felicíssimos. E outros, que não têm nenhum problema de desempenho sexual, se afirmam à beira da rotura. O que significa que o toque, a ternura, a maneira como o outro se sente gostado, apoiado, etc., tudo o que faz - se quiserem - essa paleta de afetos que a sexualidade implica, são tão importantes como o sexo puro e duro. E é nessa conjugação, digamos assim, que nós podemos envelhecer bem, em vez de fingirmos que não envelhecemos. E podemos dizer aos 60, aos 70 e aos 80 - e garanto-vos que estou a falar, não por experiência própria ainda, mas por experiência de consultório - dizer: "Tenho uma vida, ao nível da sexualidade, feliz". Fiquem bem. E para aqueles a quem isto se aplique, que aquilo que eu desejei, seja a vossa realidade. 

 

Subscreva a nossa newsletter e seja o primeiro a saber do que se fala por aqui.

Para que precisamos dos seus dados?

Os dados pessoais por si acima facultados serão tratados para envio da newsletter que subscreve. Se nos der o seu consentimento, iremos também usar a sua informação para envio de comunicações relativas a produtos e serviços da Fidelidade que poderão ser do seu interesse. Recordamos-lhe que tem o direito de retirar o seu consentimento a qualquer momento. Os seus dados nunca serão utilizados por terceiros ou entidades externas à Fidelidade.



Gostaria de ser informado acerca dos produtos e serviços da Fidelidade?

Conheça aqui a Politica de tratamento e Proteção de dados Pessoais