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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Sociedade em Quarentena
Em termos sociais, nunca na história da Humanidade, tivemos tantas possibilidades de nos ligarmos a outros através da tecnologia.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Hoje vou-vos levar bem mais perto. Vou-vos levar à Universidade do Minho e ao meu colega - o Doutor Pedro Morgado. Que com a sua equipa, nomeadamente uma colega nossa espanhola - a Maria Perez, têm estado a fazer um estudo de como a população tem vindo a reagir à pandemia. 

Quando eu li a notícia estavam já 1600 pessoas a colaborar no estudo. Mas, entretanto. podiam outras pessoas juntar-se a ele e, portanto, presumo que quando me estiverem a ouvir já teremos uma amostra mais significativa. Uma nota de rodapé - mas que é importante: todo o estudo foi aprovado pela Comissão de Ética da Universidade do Minho. E é muito curioso, porque o Doutor Pedro Morgado refere-se a uma revisão que tem estado por aí, nos meios académicos e clínicos da The Lancet, sobre os resultados psicológicos, sobretudo psicológicos, da quarentena. Seja para a população em geral, seja, inclusivamente, para os profissionais de saúde. E devo-vos confessar que - eu diria que mais uma ou duas semanas - e esse estudo publicado na The Lancet também vai pairar muito sobre as conversas que nós vamos ter. E uma ou outra vez, eu vou-me referir a ele porque gostei muito de o ler.  É um estudo que se debruça sobre outros períodos em que houve quarentenas ou, se quiserem - o Doutor Pedro Morgado estabelece muito bem essa diferença - isolamento social preventivo. E aqui, queria logo parar um bocadinho. Ou seja, estão-nos a pedir - sobretudo a nós, os velhotes - para termos muito cuidado e ficarmos por casa. Bom, em contrapartida a expressão isolamento social - o preventivo está mais que correto - em 2020 já traz água no bico. E tem muito que se lhe diga. 

Porque nós estamos fisicamente - se cumprirmos, isolados. Mas em termos sociais, nunca na história da Humanidade, nós tivemos tantas possibilidades de nos ligarmos a outros através da tecnologia. Por isso, nunca me ouviram demonizá-la. Neste momento, a tecnologia está, em termos psicológicos - nem estou a falar de ventiladores - a ser preciosa. E portanto, precisamente porque nós temos que fazer um isolamento presencial devemos tentar, através da tecnologia, ter um reforço daquilo que é a nossa rede de suporte social. Bom, o Doutor Pedro Morgado salienta algo quando fala no estudo da The Lancet, que é: o efeito angustiante - no mínimo produtor de confusão no público em geral - das incertezas. E nós estamos cheios delas. 

Sobre o vírus - como funciona; se com o tempo quente abranda ou se não abranda; se há segunda vaga; quando é que as coisas vão ficar - digamos assim - mais amenizadas em termos de decisões nos diversos países. Tudo. Vou-vos dar um exemplo: foi muito bom que a questão da máscara ou não máscara e em que sítio, a pouco e pouco, fosse conseguido um consenso. Porque não é bom que as pessoas, que já têm que se preocupar com a sua sobrevivência - ponto final - pura e dura, ainda estejam confusas com mensagens que lhes são passadas, seja pelo poder político, seja pelos especialistas, etc. Em contrapartida, enquanto isto correu bem - talvez fosse melhor que tivesse, digamos assim, caminhado para um consenso mais cedo, mas tudo bem.  Em contrapartida, vou-vos dar um exemplo de algo que não me agradou nada. 

Quando a Presidente da Comissão Europeia vem dizer: “Ah, provavelmente para os mais velhos, se calhar não se pode aligeirar as medidas de confinamento.” É claro que ela disse, sobretudo nos lares. É verdade. Mas, não se pode aligeirar essas medidas antes do fim do ano. A minha caixa de correio ficou atulhada de emails de gente mais velha a dizer: “O quê? Até 31 de dezembro? Então, para isso mais vale infetar. Havia gente a dizer: - Vou deixar de ter determinadas precauções. Ou seja, este tipo de afirmação, que nem sequer a 8 meses de distância deve ser feito, em termos rigorosos, vem aumentar o estado de ansiedade e de confusão das pessoas. A equipa do Doutor Pedro Morgado diz coisas que são perfeitamente expectáveis. Mas que é preciso comprová-las. Dizem, por exemplo, que pessoas com sintomas de distúrbio obsessivo-compulsivo podem estar a vê-los tornar-se mais acentuados. Que a ansiedade pode estar a ser mais acentuada, também. Mas, queria-vos explicar que isto não pode ser tomado como um todo homogéneo.

Por exemplo, um jornal espanhol trazia uma reportagem com uma entrevista a um colega meu, em que havia algumas pessoas com problemas psicológicos a dizer que se sentiam melhor. Sabem quem? Pessoas que sofrem de agorafobia, ou seja, pessoas que têm medo dos espaços abertos. E portanto, o facto de estarem confinados dava-lhes alguma segurança. Qual é o problema disto? Isto não é uma verdadeira melhoria, é um reforço do sintoma. E o Doutor Pedro Morgado chama também a atenção para algo muito importante, que é: estando nós enclausurados, há determinado tipo de comportamentos que se tornam mais prováveis. Olhem o jogo online, as dependências. Já lá vai o tempo em que as dependências tinham sempre a ver com produtos que se iam consumir - não, o jogo online. Espanha proibiu anúncios ao jogo online, por causa disso. 

Quem diz esse tipo de situações, diz outras que também podem ser, digamos assim, prejudiciais em termos do equilíbrio psicológico de todos nós. É um trabalho que, até por ser longitudinal, ou seja, vai-nos acompanhar ao longo desta situação, tem muito interesse. Porque haverá variações e porque nos vai conduzir àquilo de que falaremos na próxima semana, que é a diferença de reações de acordo com a faixa etária. Como diria o velho Fernando Pessa: “Imaginem vocês que, às vezes, os mais velhos têm menos medo do que os mais novos, por razões que não são as melhores. E esta, hein?” Diria o Pessa. Cuidem-se.

 

 

 

 

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