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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #vidasaudável
  • #sono
Sono ao longo da vida
O sono regenera-nos física e mentalmente.
TRANSCRIÇÃO

Eu hoje tenho uma tarefa que não é fácil porque tenho de vos falar sobre o sono e, ao mesmo tempo, evitar que vocês adormeçam. Portanto, é o que se chama “patinar sobre gelo fino”, ou andar um bocadinho como os equilibristas. 

É curioso que uma mulher tão inteligente como Virgínia Wolf se tenha referido ao sono como “essa deplorável redução do prazer da vida”, não é a única com esta atitude. O que é que esta frase – aliás, bela – traduz? A sensação de que, dizem-nos, para os que dormem bem as 8 horitas, dizemos: “Ai que desperdício, 1/3 da nossa vida é passado a dormir”. Curiosamente, podemos contrapor a Virgínia Wolf a sabedoria popular portuguesa, que diz assim: “O dormir bem é meio sustento”. E quem tem razão é o povo. Porquê? Porque a frase de Virgínia Wolf, quer queiramos, quer não, assume o sono como uma espécie de vazio, e, sobretudo, como uma passividade, nós estamos vivos, digamos assim. 16 horas, depois estamos 8 horas “desligados”, para utilizar terminologia mais à moda dos nossos tempos, e depois voltamos a ligar. Nada mais falso. 

Sem o sono, sejam as horas quantas forem, sem o sono, o tal “prazer da vida” de que Virgínia Wolf falava é impossível. E quero aproveitar para agradecer porque eu fui vasculhar uma entrevista da Dra. Teresa Paiva, de março de 2019, ao DN, com a Alexandra Tavares Teles, e quero-lhe agradecer porque muitas das coisas básicas que vos vou dizer estão contidas nessa entrevista de uma maneira transparente, e, mais a mais, é alguém que já nos deu o prazer, a mim e à Inês Maria Menezes, de estar no “Amor É…”. E a Dra. Teresa Paiva é perfeitamente cristalina. Ela diz, primeiro: “o sono regenera”. Regenera-nos física e mentalmente. Nas duas dimensões. E um critério que ela dá, e eu sorri-me quando li a resposta porque há pessoas que têm o talento de dizer o fundamental e o complexo de um modo profundamente próximo das pessoas. Perguntava-lhe: “mas como é que nós sabemos se dormimos o suficiente, se dormimos bem?” E ela disse: “Bom, se nós acordarmos bem dispostos e sem dores de cabeça, em princípio foi isso que aconteceu”. E eu pensei: “Ei, caramba, isto é de uma profunda sageza porque, realmente, quando eu acordo sem dores de cabeça, em princípio, o dia vai correr bem melhor do que nos outros dias”. E o que nos diz a Dra. Teresa Paiva? A Dra. Teresa Paiva diz-nos coisas preocupantes. Diz-nos que em Portugal se dorme mal, que grande parte dos portugueses não chegam a dormir 7 horas, qualquer coisa como 6 horas e meia, e que para aí 20% de nós dormem menos de 5 horas. E isto não é bom. Porque o que é afirmado sem margem de dúvidas é que estamos a criar uma sociedade de gente que dorme mal e que vai ter problemas de saúde graves por causa disso. Dir-me-ão: vai-nos “atirar à cabeça”, com acidentes de trabalho ou acidentes de trânsito logo de manhã? Por acaso, posso fazê-lo. Se nós estamos meio adormecidos, isso pode acontecer. Às vezes, eu pergunto-me quais serão os níveis e, se calhar, isso já foi determinado de uma forma rigorosa, mas eu não li artigos sobre isso. Eu pergunto-me quais serão os valores que poderão sair da análise, quando há acidentes rodoviários, não em termos do álcool, que, como sabem, tem uma influência inegável, mas em termos de drogas para dormir. Ainda por cima drogas essas que, com o uso prolongado provocam dependência e não fazem já efeito nenhum em termos de qualidade de sono. Mas não estou só a falar dessa questão. Nós hoje sabemos que a obesidade, a diabetes, doenças cardiovasculares, doenças que têm a ver com a cognição, com as demências, por exemplo, que estão na ordem do dia, tudo isso, não de uma forma a preto e branco, de uma relação causa-efeito de “isto provoca aquilo”, mas todas elas também estão ligadas com a má qualidade do sono. 

Depois, há questões mais prosaicas, que quase todos nós conhecemos, ou em nós mesmos – eu conheci – ou em alguém de um círculo próximo, sei lá, a apneia do sono. O que é que acontece na apneia do sono? O que acontece é que durante alguns segundos nós deixamos de respirar e o acordar, para quem já experimentou, não é nada agradável. Neste momento, não cessa de aumentar o número de pessoas que, para dormirem bem, durante a noite, têm de ser assistidas porque, hoje em dia, há aparelhos específicos para isso. Nada contra, abençoados. Mas, antes disso, há outras coisas a tentar, por exemplo, fazermos exercício. Por exemplo, olha, a mim resolveu-me o problema há muitos anos atrás: perder peso, perder peso pode resolver uma situação dessas. Haver a chamada “higiene do sono”, e, aqui, há pessoas que infelizmente não a podem ter, alguém que trabalha por turnos tem uma enorme dificuldade em manter hábitos que se transformam em verdadeiros reflexos. Ou seja, nós, em princípio, devemos tentar deitar-nos mais meia hora, menos meia-hora do que uma determinada hora e isso ajuda a estabelecer o reflexo do sono. Bom, outra das coisas que a Dra. Teresa Paiva nos diz é: nós somos dos países em que as pessoas se deitam mais tarde, levantando-se à mesma hora que os outros, o que inevitavelmente diminui a quantidade de sono. 

Mais problemas? Às vezes, completamente inesperados. Por exemplo, não é uma boa ideia estar a fazer exercício físico em ginásios, como seria inevitável, altamente iluminados, à noite. Pelo contrário, nós devemos tentar ir, posso empregar uma palavra à moda do Porto, irmos “amouxando” calmamente, de modo a que a ida para a cama, não é nenhum crime adormecer no sofá, mas não é uma boa ideia, até pelo que vos contei do reflexo do sono e também para aqueles que são já da minha idade porque a coluna não costuma gostar. Dormir é na cama. Depois, cada um de nós também é diferente.

Às vezes, acordar a meio da noite não é tragédia nenhuma, a Dra. Teresa Paiva até diz algo muito engraçado, que é: nos séculos XVII e XVIII, havia muita gente, desconfio que das classes mais favorecidas, que dormiam o primeiro sono, depois acordavam, conversavam, comiam, tinham relações sexuais e depois voltavam a adormecer. Depois, acabou essa festa porque a maior parte de nós passaram a ter horários estritos em termos laborais, e, portanto, não podemos acordar às 3 da manhã, fazer uma boa ceia, conversar, eventualmente enriquecer a nossa vida erótica, e depois dormir até às 11h. Foi “chão que deu uvas”, mas a nossa própria atitude e a nossa própria estrutura de personalidade pode ter influência, sabem? Há uma coisa a que eu costumo chamar “insónia hipocondríaca”, que é assim: se nós vamos para a cama já convencidos de que vamos dormir mal, a probabilidade de dormir mal é muito maior. E, sobretudo, a probabilidade de acordarmos durante a noite e não conseguirmos voltar a adormecer, aquilo que nós dizemos “andei às voltas na cama” é também muito maior, e isto também depende da personalidade de cada um. 

Por outro lado, e para terminar, eu fui – como era minha obrigação – fui ao site da Associação Portuguesa do Sono, e encontrei lá… Em primeiro lugar, os meus parabéns, eu não sabia, a Associação Portuguesa ganhou um prémio pela sua campanha: “Dormir Bem Envelhecer Melhor”, em 2019. E eu vi algumas das atividades e achei inteiramente merecido o prémio. Mas a minha colega, Maria Helena Estevão, chama a atenção para algo muito importante que é o sono das crianças. As nossas crianças estão a dormir menos e, sobretudo, estão a dormir muito menos do que os pais pensam que elas dormem, e uma das principais razões é o facto da sua nostalgia, que passa à prática, de estarem permanentemente ligadas. Os telemóveis durante a noite, etc. E o que a minha colega diz é que também os pais, com os ritmos de vida que têm, têm muito menos disponibilidade para estar atentos e para impor, vou repetir o verbo, não tenho vergonha nenhuma, para “impor” determinados hábitos. O que significa que, sobretudo para a nossa “ganapada”, é preciso que essa higiene seja algo que não é negociável, de modo a que não só na altura, mas depois ao longo da vida, seja algo que se transforme numa forma de estar sistemática, seja algo que faça parte das suas próprias rotinas, e isso facilitará a vida bem mais tarde. Se algum de vocês ainda está em estado de vigília, ao menos um, enquanto os outros já ressonam por minha causa, pronto, fica bem, meu caro amigo, e até à próxima, obrigado.

 

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