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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

  • #emocional
  • #tristeza
Tristeza
A tristeza é um sentimento tão normal como a alegria.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Sejam francos, nunca me viram com um livro deste tamanho no “Por falar nisso”, e não voltarão a ver, acho eu. São as obras de Sofia. E hoje vamos começar com um poema que é um poema de alguém que perdeu um amigo. É Natal e não vai chegar nenhuma comunicação desse amigo. 

Ora ouçam esta maravilha: " Carta de Natal a Murilo Mendes. Querido Murilo, será mesmo possível que você este ano não chegue no Verão? Que seu telefonema não soe na manhã de Julho, que não venha partilhar o vinho e o pão? Como eu só o via nessa quadra do ano, não vejo a sua ausência dia-a-dia, mas em tempo mais fundo que o quotidiano. Descubro a sua ausência devagar, sem mesmo a ter ainda compreendido. Seria bom, Murilo, conversar, neste dia confuso e dividido. Hoje escrevo, porém, para a Saudade, nome que diz permanência do perdido, para ligar o eterno ao tempo ido e em Murilo pensar com claridade. E o poema vai em vez desse postal em que eu nesta quadra respondia – escrito mesmo na margem do jornal, na baixa – entre as compras de Natal, para ligar o eterno e este dia". 

Lindíssimo. Esta mulher está triste. O que acontece, é que é uma mulher triste com um enorme talento. Mas esta tristeza não pode, não deve - vou repetir: não pode, nem deve - ser confundida com depressão. Esta mulher está triste, está a funcionar. No dia seguinte continuará a sentir a falta do amigo, continuará a funcionar, terá momentos de alegria, momentos de nem uma coisa nem outra. Esta mulher está triste no mesmo registo - se quiserem - que, olhem, nas transmissões televisivas de futebol: uma equipa marca um golo e há crianças eufóricas - não estou a dizer que os adultos não estejam, mas as crianças são sempre as crianças - há crianças eufóricas e há outras que não conseguem esconder as lágrimas, estão tristes. Algum de nós duvida que no dia seguinte elas possam estar alegremente a cirandar por um recreio de uma escola secundária? 

Porque é que vos estou a falar nisto? Se tropeçarem, ou se procurarem, as entrevistas ou os artigos do Professor Coimbra de Matos, não percam - ele fala disto como ninguém em Portugal, provavelmente - porque ele refere-se àquilo que se pode apelidar de medicalização da tristeza normal. Isto parece uma coisa muito complicada, mas não é. A tristeza é um estado, é um sentimento tão normal como a alegria. Acontecem-nos coisas na vida em que o anormal seria não ficarmos tristes. É um sentimento perfeitamente adaptado. Morre um amigo, qualquer coisa nos corre mal na nossa vida profissional e isso tem consequências, sei lá, na maneira como nós podemos até sustentar a nossa família, uma pessoa não fica triste? Claro que fica triste. E, no entanto, a tristeza tem muito má reputação, quando comparada com a alegria. Mostrarmos que estamos alegres é qualquer coisa que até é reforçado, dizer que estamos satisfeitos, sem problema, melhor, como dizem os mais novos, "Sim", mas confessar tristeza - e aqui lá vem o efeito de género - sobretudo para os homens, já não é tão fácil. E agora, porque é que eu fui tão perentório a dizer "Temos que separar isto da depressão"? Por aquela frase do Professor Coimbra de Matos. É que se nós medicalizamos a tristeza, o que nós estamos a dizer é: "Não, isto não é um sentimento normal, é um estado patológico que tem que ser tratado". E grande parte das vezes, não. As pessoas vêm ter connosco tristes e essas pessoas têm de ser ouvidas e têm de ter espaço para digerir a sua tristeza e seguir em frente. É um erro técnico medicar estas pessoas e é por isso que o Professor Coimbra de Matos sublinha essa questão. Agora, por outro lado, temos que nos lembrar que a Organização Mundial de Saúde nos diz que a depressão será uma das - tristemente - estrelas, em termos de patologias do século XXI. 

A depressão tem vindo... As depressões - não todas iguais - têm vindo a subir de frequência. E, portanto, o seu diagnóstico precoce para um tratamento também precoce, que é mais rapidamente eficaz, que pode poupar desde tempo a dinheiro às pessoas e muito sofrimento, é importante que seja feito. Tem que haver condições para isso, as pessoas têm que apresentar as suas queixas. E aqui, mais uma vez, os homens têm tendência a considerar que estão a dar provas de fraqueza. Mas não é só isso: nós continuamos a ter psicólogos a menos no Serviço Nacional de Saúde, nós continuamos a não ter a formação que deveríamos ter, nos nossos colegas responsáveis pelos cuidados de saúde primários. Como compreendem, estes não são temas que casem bem com a pressa. Vamos continuar no próximo episódio. Até lá, fiquem bem.

 

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