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POR FALAR NISSO com Júlio Machado Vaz

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Vida Social depois dos 60
À medida que envelhecemos, a importância da socialização torna-se cada vez maior.
TRANSCRIÇÃO

Olá. Um doce, a quem adivinhar que livro é este. Eu dou uma dica: é o meu livro de cabeceira. Ah! Aquela senhora adivinhou. São as obras de Eugénio de Andrade. Ora oiçam este poema. Chama-se "Mulheres de Preto". 

"Há muito que são velhas, vestidas de preto até à alma. Contra o muro, defendem-se do sol de pedra; ao lume, furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também". 

Convenhamos que não é um tratado de otimismo. E hoje estamos a falar precisamente da importância da socialização. Estas mulheres estão juntas mas, ao mesmo tempo, estão profundamente sós. E, à medida que nós envelhecemos, a importância da socialização - arrisco-me a dizê-lo - vai-se tornando cada vez maior. Se se lembram, na escola secundária, no meu tempo até se dizia que nós éramos animais gregários. Uma coisa é certa, nós somos animais de relação. Podemos gostar muito de estar sozinhos mas, verdadeiramente, quando não estamos em relação com outros isso pode tornar-se complicado em termos psicológicos, mas também em termos da nossa própria saúde. Sabem? Durante muito tempo - ainda ensinei isso - durante muito tempo, nós dizíamos que a solidão era um fator de risco em termos de saúde, inclusivamente física, porque havia um apeadeiro, digamos assim, que era a depressão. Nós estávamos sós, mais facilmente deprimíamos, com a depressão as defesas imunitárias baixavam e podiam surgir determinadas doenças. Hoje, nós temos artigos que dizem: "Isso é verdade, mas não é toda a verdade. A solidão, só por ela..." - e é dizer a solidão sozinha - "... é capaz de ser um fator de risco para doenças". O que significa que, à medida que nós temos uma população cada vez mais envelhecida, temos de lhes dar possibilidades de se manterem em contato, digamos assim, com os outros. 

Quando se fazem inquéritos, as respostas são - eu diria, quase por sistema - homogéneas. Importância: família, amigos, vizinhos. Com uma diferença de género: as mulheres a dizerem, ainda mais que os homens, que estes relacionamentos são importantes. E isto é curioso, porque encaixa muito bem com uma noção que a ciência tem há muitos, muitos anos. As mulheres, seguramente por razões culturais, talvez por questões que um dia possamos descobrir em termos biológicos, em termos da própria diferença dos cérebros, as mulheres - dizia eu - são consideradas as mediadoras afetivas por excelência, na nossa espécie. 

Na questão da viuvez: como sabem, há mais viúvas do que viúvos, porque as mulheres têm uma esperança de vida maior que a dos homens. Mas há outras questões que talvez não sejam tão conhecidas, que é: quando alguém fica viúvo, os homens são mais frágeis do que as mulheres. Num intervalo de dois anos a seguir à viuvez, para aquilo que seria espectável, morrem mais homens do que deveriam morrer, em termos estatísticos e a diferença com as mulheres é clara. E uma das razões que os meus colegas avançam, é que os homens não só são menos autónomos do que as mulheres, em termos da sobrevivência quotidiana, mas também com mais facilidade caem em situações de isolamento, porque ao longo da sua vida de casal eram as suas mulheres, verdadeiramente, as mediadoras das suas relações interpessoais. Agora, há inúmeras variáveis a serem levadas em conta, obviamente: questões de autonomia financeira, mas até - olhem - questões arquitetónicas. É claro: incluídas numa estratégia. Eu li há pouco tempo um artigo de um autor espanhol, arquiteto, que descrevia um lar para a terceira idade que tinha, para além da zona residencial para as pessoas que lá estavam, tinha um centro de dia - portanto, pessoas que passam lá o dia e depois vão dormir a suas casas - e tinha inclusivamente um pequeno bar/café, para a população em geral. E isto é importantíssimo em termos de socialização. Em vez de estarmos a criar quistos, digamos assim, para as pessoas, não: há uma circulação - não sanguínea, mas uma circulação comunicacional - com a população em geral. As experiências que têm vindo a ser levadas a cabo, com muito sucesso, de coabitação das gerações mais antigas com as gerações mais jovens - por exemplo, oferecendo aos mais jovens a possibilidade de terem alojamento grátis para poderem estudar na cidade onde está a sua universidade - faz com que os dois grupos também interajam. 

Por último, queria-lhes dar uma ideia, também à boleia do velho Eugénio. Há quatro linhas dele, que se intitulam "O amigo". "Não voltará o que dele me ficou, é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina, mas não aquece as mãos". Um verso extraordinário: "Ilumina, mas não aquece as mãos". Nós não podemos esquecer que os mais velhos - permitam-me que o diga - nós, os mais velhos, vivemos num mundo crepuscular, porque somos acompanhados pelos vivos e, a cada ano que passa, por mais memórias de outros que amamos e que já não estão connosco. É nossa obrigação, como sociedade, não deixar que os mais velhos acabem demasiado refugiados, na zona do crepúsculo já encostado à noite e, pelo contrário, mantenha sistematicamente o contato com o dia e com a luz do sol. Fiquem bem. 

 

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